Chega de textos melosos. Dúvidas que ja foram esclarecidas. Frases que ja foram escritas. Palavras que ja foram ditas. Existem situações que é melhor calar.
Seu cheiro, seu gosto, suas manias, a maneira como falava, seus gestos ainda tão familiares.
A maneira como faziam amor, o beijo quente e intenso, o corpo junto ao seu, o suor que escorria pelas costas, os olhos revirando de paixão, desejo, a respiração ofegante... e as palavras que gostava de dizer, junto ao seu ouvido.
Ele ainda estava lá. Em sua mente, em seu corpo, em seu coração.
Mas não mais presente em sua vida. Chorou sua morte.
Por dias sentiu como se tivessem arrancado algo de seu corpo, uma parte dela havia morrido, junto com ele.
* Muitas vezes é preciso dar as costas.E esquecer.
Ele é único, o jeito de franzir a testa quando está preocupado, a maneira quase infantil de pedir as coisas, a docilidade, a sinceridade, a voz que pode ser firme e terna e uma risada contagiante, inebriante, que fascina.
Tem um jeito malicioso, com um olhar diz tudo, sem pronunciar uma palavra.
Quando está feliz tudo nele vibra, é emoção, é paixão.
A maneira como baixa os olhos quando fala, a força e a vontade que coloca em tudo que faz.
A obstinação, a superação.
O sorriso mais sincero. O abraço mais verdadeiro. O beijo mais ardente.
Olhos que me fazem perder o rumo.
Me confundo, e ao mesmo tempo acho a explicação para tudo o que até hoje ainda não tinha entendido.
Minha mudança mais significativa. Meu desejo mais secreto... meu sonho mais louco, que agora finalmente tomou forma.
Risos, meia luz, taças de vinho tilintando e uma sensação inebriante de felicidade.
Estava ali eu, sentada naquela cadeira, acompanhando meus pais em mais uma noite que na minha visão seria como todas as outras, conversas vazias no meio de gente chata.
O que eu, no alto dos meus 15 anos fazia ali, naquela pequena cidade, no meio de pessoas tão sem graça?
Depois de várias recusas para dançar, e algumas tentativas frustradas de ir embora, aconteceu algo inesperado.
Foi quando ela entrou.
Todos na sala viraram-se, possuía um andar único, mesmo que quissesse não poderia passar despercebida.
Pararam-se as danças, os risos, tudo cessou, era somente ela no meio do salão, virou-se para os músicos, e com apenas um sinal, a música recomeçou.
Seu rosto, agora corado contrastava com a cor alva de sua pele lisa, quase juvenil, seus cabelos escuros e curtos, deixavam a mostra sua nuca e seu pescoço de proporções perfeitas.
O mundo podia acabar naquele momento, aquela visão era mágica, surreal.
E ela dançava... ao som frenético daquela música, quase que em transe.
Não se importava com nada, era livre, olhos famintos a seguiam, e ela gostava.
Ah! Ela gostava de ser admirada, desejada, brincava com os sentimentos alheios, era sua diversão, conseguia aguçar a imaginação do mais sério dos homens.
E eu à admirava, tudo o que queria ser, o que queria ter, seu jeito passional, sua segurança, sua maneira muitas vezes até libertina era fascinante.
Era destestada por muitas, invejada por outras, admirada secretamente por todas.
A música parou, ela ofegante permanecia ali, imóvel, o suor escorrendo por suas costas, os braços caidos ao longo do corpo.
Eu olhava à tudo maravilhada, extasiada.
Ela abriu os olhos, arrumou o vestido, e caminhou lentamente para a saída.
Seu perfume ainda persistia no ar, doce e encantador.
Ninguém ousou falar uma palavra, mas os pensamentos quase podiam ser ouvidos.
Depois dessa noite, nunca mais foi vista, como chegou, partiu.
Em vão tentei saber sobre sua vida, mas nada descobri, era como se nunca tivesse existido.
Ainda guardo na memória aquela noite, aquela visão mágica, etérea, que durante anos foi minha referência de liberdade e beleza feminina, e que até hoje me emociona, tanto pela beleza como pela ousadia.
Não tinha certeza se tudo era realmente verdade, as vezes pensava que tinha sido um sonho, algo que havia acontecido a muito tempo. Palavras, sensações, sentimentos, beijos, abraços, a mão que toca com delicadeza, o sono agitado, mas com a certeza de se estar seguro, o silêncio que não precisava ser quebrado, a história que precisava ser terminada.
Caminhou durante horas. Não sabia para onde estava indo, era guiada por suas lembranças.
Já não sentia mais a melancolia de outrora, somente a sensação de estar vivendo e sentindo algo que nunca sentira, não daquela maneira e com tamanha intensidade.
Dizem que quando se ama, perde-se a razão, o equilíbrio, a sanidade, comete-se loucuras em nome de um sentimento que nem sempre é verdadeiro. Mas dessa vez não, fora tudo diferente. Alguma coisa estava diferente, ela sabia, não sentia o medo, a ansiedade, ou a tristeza de estar longe, somente a sensação de ter feito tudo, sentido tudo, vivido tudo.
Parada na rua, levantou os olhos, e lembrou daquele lugar, nem havia percebido, mas sem querer acabou naquela rua, onde haviam dado o primeiro beijo.
E aquele beijo... Que disse tanta coisa, que mostrou tanta coisa, ainda podia sentir seu gosto, e a deliciosa sensação de entrega, do novo, da surpresa.
Foi ali, que mesmo sem saber, havia se apaixonado.
Mesmo que quissesse, mesmo que tentasse, não poderia esquecer... não ainda.
O sol no rosto, quente e terno, lembranças vão e vem como um carrosel.
Crianças brincando, casais sorrindo, o cheiro do café, o sorriso ingênuo, e a pergunta que ficou sem resposta.
A vida como deveria ser, sem questionamentos, sem rancores, sem mentiras ou verdades inventadas, somente o prazer de estar na hora certa, no lugar certo, e quem sabe, com a pessoa certa.
***
Seu sorriso era encantador, quase hipnótico, exalava um perfume inebriante que o deixava tonto.
Sentiu-se preso, estava perdido e enlouquecidamente apaixonado.
Seus olhos diziam tudo e nada ao mesmo tempo, eram sua perdição e sua redenção.
E aquele beijo! Ah! Nunca poderia esquecer.
Ele fora o prenúncio de tudo, de tudo que viria a acontecer depois.
Depois daquele beijo, sua vida nunca mais seria a mesma.
Estava cinza, escuro. Como seus pensamentos. Queria não pensar, limpar sua mente e agir racionalmente. Dentro do peito um vazio, seu coração havia partido, fora arrebatado, e como um louco, que age sempre por impulso, partiu. Ja não obedecia mais a seus pedidos, tinha vida própria, e era orgulhoso e teimoso. Havia se apaixonado, e quando fazia isso, tudo mudava. Não queria mais pensar, doía. Doía quase que fisicamente. Sentia na pele, nos ossos, na carne. Não entendia o porque de certas atitudes, de certas palavras, de alguns gestos. Era tudo simples, era para ser simples. Mas as coisas insistiam em ir para o lado mais cinza, mais complicado.
** Levantou-se. Lá no alto, livre, solto, estava seu coração, sentia falta dele, o queria de volta, mas sem ansiedade, sem calafrios, sem calores fora de hora, sem angústias ou dúvidas. Simplesmente seu.
Estendeu a mão, e pegou-o com toda a força que possuía. Mas ele ja não lhe pertencia mais como antes, pertencia a outro, e com seu jeito sedutor, mais uma vez a convençeu, não podia resistir, deixou-se levar.
Parou de pensar, sentiu seu corpo levitar, e quando percebeu estava novamente a sua mercê, de seus desejos, suas vontades e suas artimanhas.