O Beco.

Ela tinha 17 anos, uma vida pela frente, um futuro todo nas mãos... tinha sonhos, nada tão grandioso, mas que na sua opinião cabiam direitinho dentro da vida que havia escolhido.
Era bonita, sabia disso, e os olhares famintos, que ela sentia quase queimando sua pele, confirmavam.
Tinha consciência do seu poder de sedução, e abusava dele, para conseguir o que queria.
Fazer amizades era algo natural, como comer e dormir, tinha muitos amigos, e isso a tornava popular, algo de que se orgulhava muito.
O conheceu por acaso, em uma festa, ele 21 anos, bonito, circulava entre todos com uma desenvoltura invejável, era admirado também, como ela.
Pensou rápido, ele era perfeito, eram perfeitos.
Usou de todo seu poder de sedução, se olhou no espelho, estava impecável, simples, mas linda, usava tudo na medida, não gostava de chamar a atenção no que diz respeito a roupas e acessórios, mas sim que olhassem para sua beleza natural, seus longos cabelos negros, contrastavam com a pele clara, e os lindos olhos grandes e vivos, não precisava de artifícios.
Ele não demorou a notá-la, seu olhar magnetizante, seu jeito doce e ao mesmo tempo perturbador, o assaltou de imediato. Não conseguia tirar os olhos dela, de seu corpo, seu jeito de andar, tudo nela era perfeito.
Um jeito infantil, e ao mesmo tempo feminino e audacioso.
Seus olhos se encontraram, e o desejo foi recíproco, não precisaram falar nada, a respiração ofegante, o coração disparado, incontrolável.
Desde essa noite se viam regularmente, a separação era sempre triste, juras de amor, lágrimas, seus corpos se encaixavam perfeitamente, tudo era perfeito e intenso, poucas palavras eram trocadas, não era necessário, se bastavam, suas salivas eram suas frases, seus anseios, seus desejos.
Mas ela era livre, o amava do fundo de seu coração, como nunca amaria ninguém em sua vida, mas queria mais, queria os olhares novamente, a admiração, ser desejada, a liberdade que tanto almejou.
Gostava de sentir seu corpo, seus beijos, mas também tinha seus sonhos, e ele estava sufocando todos eles, inclusive ela.
Ele tinha medo de perdê-la, a queria só para si, quando saiam, ficava nervoso com os olhares, o ciúmes doía na pele, na alma, a vaga idéia de alguém desejando- a tocando-a, despertavam sentimentos horríveis, tinha medo disso, do que poderia fazer, mas era mais forte que ele.
Depois de muito sofrimento, cenas lastimáveis, inúmeros pedidos de perdão, juras de amor, e a promessa de que não os repetiria, o fim.
Ela ainda o amava, mas não havia como manter um relacionamento destrutivo.
Gritos, lágrimas derramadas, um sem fim de promessas, mas nada mais seria como antes, o amor não era mais o mesmo, o sentimento de posse acabara com tudo de puro e belo que existia.
Mas ele não aceitou, pediu, implorou, se humilhou, ela estava irredutível, não gostava dele da mesma maneira, ele se tornara um estranho, alguém que ela não conhecia mais, ela preferia lembrar-se dele como antes, carinhoso, amoroso, doce, forte e apaixonado, não esse fragmento de homem que havia se tornado.

O tempo passou.
E então aconteceu, numa noite sem lua, ela voltava para casa depois da aula, estava freqüentando o curso noturno, trabalhando de dia, e feliz, como a muito não ficava, sentia falta dele, e muitas vezes pensou em ligar, e quem sabe reatar, mas ele havia sumido, diziam que tinha viajado, ela até achou que ele havia mudado de vida e quem sabe estava feliz, como ela.
Perdida em seus pensamentos, nem notou uma sombra negra, que se movia fantasmagórica por entre as ruas, seguindo-a, silenciosamente.
Não teve tempo, não pensou em nada, nem sentiu dor alguma.
O liquido quente escorreu por seu ventre, foi quando suas pernas fraquejaram.
Levantou a cabeça, e seus olhos se encontraram, um brilho assustador e amedrontador, e a pergunta que saiu quase como um gemido.
Porque?
Ele abaixou-se, beijou-a, e saiu caminhando, lentamente.
Agora a tinha só para si, seus lábios nunca mais pertenceriam a outro.

 
 
 
 

Postar um comentário 5 comentários:

Alisson da Hora disse...

É assim...o amor sempre nos pega desprevenido em qualquer beco...

ainda bem que eu ando em ruas abertas, ou nem saio de casa...

=***

23 de outubro de 2008 00:13

Layla Lauar disse...

"Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades." (Cervantes)

O ciúme é um sentimento que tem a idade do homem. Sócrates o definiu como "a dor da alma".

Esse sentimento, por muitas vezes, adquire um furor tão devastador que William Shakespeare o chamou de "monstro dos olhos verdes" e é sobre ele sua obra em que "Otelo – O Mouro de Veneza"; movido por um ciúme doentio do seu melhor amigo com sua esposa, acaba matando a honesta, terna e doce Desdêmona.

O drama de Shakespeare se repete até nossos dias. Muitos Otelos e Desdêmonas da vida encenaram e encenam seu texto na vida real.

muito bom seu conto querida... eu adorei!

beijos

24 de outubro de 2008 02:02

Melsavinon disse...

Pior que agora virou febre nacional...essa de matar por amor...doença isso sim!
Mas seu texto é perfeito!Por isso gosto de passear por aqui.Obrigado pelo comentário lá no blog.
Abração.
Mel

24 de outubro de 2008 12:03

mauro alex103 disse...

simplismente ADOREI!!!!!!!

28 de outubro de 2008 14:07

D.Ramírez disse...

Uma pontinha de ciume faz parte do gostar, mas ciúme pesado, amor pesado, amor sufocante, não é amor. Amor, não me canso de falar, é amor. Ame e ponto. O resto é loucura, é doença. Amor é tudo que está bom, se não é, não é amor. Por isso amo sempre, independente de quem seja, pq amor é esse sentimento que sentimos quando escrevemos algo e passamos a outras pessoas...não sei pq isso aqui me inspira ..rsrs, ou melhor, sei sim, são seus textos...
besos e ótima semana prá vc tbm;)

10 de novembro de 2008 10:56

Postar um comentário