O Beijo.

Caminhava lentamente, a rua deserta lhe conferia um ar lúgubre, sombras dançavam formando um balé macabro.

Ela não tinha medo, estava acostumada com a noite e seus mistérios, sua força vinha dela, e seu mundo era viver errante por seus becos obscuros.

Conhecia cada canto daquela cidade que tanto amava, e ao mesmo tempo odiava.

Tinha um fascínio pela noite, escondia mistérios que ninguém podia decifrar, amores impossíveis, amantes apaixonados, tristezas profundas e segredos inconfessáveis.

Mas ela também sabia, que era só ali, na escuridão que poderia viver, era sua sina e sua maldição.

Não se importava, fora criada indenpendente, não precisava de mais nada, deslizava seu corpo perfeito e lânguido por lugares inimagináveis, tinha um fogo no olhar impossível de esquecer, seus cabelos vermelhos caíam-lhe pelos ombros como labaredas incandescentes, suas roupas negras, coladas ao corpo eram como uma segunda pele, parecia que já havia nascido dentro dela, dado ao encaixe perfeito em suas curvas .

Naquela noite estava agitada, entrou no bar, sentou-se no balcão, e pediu o de sempre.

Sentia os olhares em seu corpo, quase perfurando sua blusa, não se importava, até gostava da sensação de ser desejada, sabia disso, e se orgulhava.

O relógio marcava 23h53. Não precisou virar-se, sentiu seu cheiro, tão familiar, um cheiro adocicado de madeira, selvagem e perturbador.

Sentou ao seu lado, e pediu algo mais forte. Beberam em silêncio.

Não trocaram nenhuma palavra, sabiam porque estavam ali. Tinham um desejo em comum, e isso lhes bastava.

Saíram para a escuridão da rua, o ar gelado fez com que seu corpo tremesse, não de frio, mas de desejo, ja não poderia mais controlar, não esperou muito, e ali mesmo, ele a beijou.

Um beijo forte, quente e selvagem, sua boca suplicava por aquilo, era como uma redenção, um pedido de socorro, com violência arrancou sua blusa, e ali encostados na parede ele a possuiu, lágrimas rolaram por seu rosto, num mixto de desejo e tristeza.

A parede machucava suas costas, mas não se importava, nada mais importava, sua lingua penetrou fundo sua boca, quase como que invadisse sua alma.

No vai e vem de seus corpos, só um pensamento lhe veio a cabeça, e sabia o que viria depois.

Unidos em um só corpo, em uma dança animal e primitiva, consagraram aquele momento, culminando em um espasmo que invadiu todo seu ser.

Não ouviam nada, o silêncio era sepulcral, só seus corações batendo descompassados, em um ritmo frenético.

O líquido espesso e morno escorreu por entre suas pernas, era o que iria guardar dele.

Então, se recompondo, virou para ele, e em um abraço demoníaco o envolveu, ele deixando-se levar, não resistiu, e sem nenhum pudor ou medo, ganhou o beijo da morte.

O sangue escorreu por seu pescoço, e com um olhar de penitência e terror, sorriu pela última vez.

Com ele nos braços, ali permaneceu, durante um longo tempo.

Percebendo os primeiros raios de sol, o abandonou, ali naquele beco fétido e escuro.

Ja não sentia mais o perfume adocicado, tão familiar. Só o gosto amargo de seu sangue, que ainda persistia em sua boca.

Caminhava lentamente pela ruas, seu lar. Não sentia mais tristeza, seu coração a muito ja não batia, era somente algo que existia dentro de seu corpo.

Sabia que teria que retornar, e não se importava mais, nada importava mais.


Somente sobreviver... sobreviver.




 
 
 
 

Postar um comentário 11 comentários:

Aline Dias disse...

Oi, Renata,
Obrigada pelo comentário, volte sempre. Também gostei muito do teu espeaço, em especial desse texto-conto. Sempre gostei muito de “histórias Anne Rice”, do memento de escolha da “presa”, mas principalmente amo a sutileza com que ela mostra os relacionamentos.
Enfim, teu texto me aproximou dela.

Abraço!

13 de novembro de 2008 14:22

tossan disse...

Um conto bem escrito e forte, não é? Gostei. Bj

13 de novembro de 2008 21:34

Alisson da Hora disse...

Vampirismo às vezes encerra uma espécie de cumplicidade macabra. E sempre muito erotismo...

imagens fortes, significativas...

beijo beijo

13 de novembro de 2008 22:38

lis disse...

conto realmente forte, interessante...envolvente...gostei muito.

Beijos

13 de novembro de 2008 22:57

D.Ramírez disse...

Forte , encantado e belo...se eu recebesse um beijo ou mordida de uma mulher assim, não iria pra o leito da morte, como citado, mas sim para o leito dos vivos e bem vivos, pq caliencia dessa um beijo ardente desse, só nos faz querer viver, mais e mais.:)
Besitos e ótimo texto!
Ei, falar em beijo, tem um selinho pra vc, não é de beijinho, mas é igual dado, com muito carinho

14 de novembro de 2008 11:07

Melsavinon disse...

Guria!
Primeiro obrigado pelo comentário,você tem uma alma linda!
Segundo:
Você pegou meu ponto fraco...contos de vampiros...demais!Sabia que quando eu era mais nova costumava a escrever versos como se fosse uma vampira rockeira? Me lembrei disso...tinha um pseudonimo pra ela e escrevia livros...quem sabe um dia não te mostro ok?
Beijo do tamanho da sua tela!!!

14 de novembro de 2008 11:48

Manu! disse...

(re)conheço outra (re)nata neste texto!! se.re.nata :)

14 de novembro de 2008 21:30

Sun(shine) , «3 disse...

Eu nunca conseguiria escrever um conto destes....está PERFEITO ! Adorei adorei *___*

Obrigada por lá passares, realmente aquela música é lindíssima :)

grande beijo*

15 de novembro de 2008 09:39

Marcos Campos disse...

Olá Renata!!
Adorei o texto, uma sou super fâ da Anne Rice (vc deve conhecer...) e vc não deveu nada a ela!
Parabéns pelo texto cativante, erótico, carregado, pesado de emoções...
Bj

15 de novembro de 2008 11:10

meus instantes e momentos disse...

lindo conto.
Gosto de voltar aqui.
Tenha um feliz domingo.
Maurizio

16 de novembro de 2008 08:26

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