A Estrada (continuação)


Acordou com um ruido na porta.
Lá fora somente os sons da noite, um silêncio quase celestial, podia ouvir seu coração batendo.
Levantou-se devagar, fazia frio, o inverno começava a despontar, e o vento gelado que vinha das montanhas já se fazia presente.
Vestiu-se como pode, sentiu um arrepio na espinha, pensou que mais tarde deveria colocar um fogão a lenha, manteria a casa aquecida.
Pegou a lanterna, não acenderia as luzes, se fosse um animal em busca de alguma sobra do jantar, havia perdido seu tempo, ainda não tinha nada a oferecer, exceto, algumas bolachas e frutas.
Na penumbra, encaminhou-se até a porta, os ruídos aumentaram, era como se alguém estivesse tentando forçar a entrada.
Avistou um pedaço de madeira que havia deixado perto da porta, para segurar a janela que ainda estava sem as trancas, o lugar aparentemente era seguro, não pensou que se preocuparia com portas e janelas, munido com algo que pensou, o protegeria, se é que era possível, abriu a porta, e sem pensar avançou para cima, daquele que parecia ser o possível invasor de sua casa.
Não conseguiu ver nada, a escuridão era total, só um amontoado de braços e pernas, e tentativas de se desvencilhar, quando conseguiu imobilizá-lo, e com a lanterna iluminou seu rosto, o susto e a surpresa.
Ali estava ela, toda arranhada, seu rosto vermelho e suado pela luta para se soltar, vestia uma camiseta branca, jeans e tênis, seus cabelos agora curtos, lhe conferiam um ar infantil, quase andrógino, era como uma criança que havia saído do parquinho, mas sem sombra de duvida ainda era ela.
Levantou-se rápido, com um sentimento entre incredulidade, surpresa e até uma ponta de felicidade, não conseguia definir o que sentia, ali estava ela, na sua frente.
Ela olhou-o com ar de ofendida, e sacudindo a poeira de sua blusa, estendeu o braço, pedindo ajuda para levantar- se.
Claro, perdido em suas divagações, nem havia percebido que quase a acertara com aquele pedaço de madeira, que por sinal, ainda permanecia em suas mãos, jogou-o longe e ajudou-a a levantar-se.
Agora sim, podia olhá-la, ainda era a mesma, era como se o tempo não houvesse passado, pelo contrário, fora muito bondoso, estava mais linda, e com uma vivacidade invejável.
Depois de recompor-se, perguntou se não iria convidá-la para entrar, afinal, era tarde, e não queria ser atacada novamente por algum outro doido, que podia estar solto pelas redondezas.
Seu senso de humor e sarcasmo, sempre foram sua maior característica, e adorava isso nela.
Entraram, ela movimentava-se como se fosse a dona da casa, ou como se nada houvesse acontecido, largou a grande mochila que carregava nas costas, tirou os tênis e estirou-se na minha cadeira preferida, que ela sabia, ninguém ousava sentar, somente ela, em outros tempos.
Aliás, obedecer regras nunca fora sua maior virtude, adorava chocar a todos, tudo que deixava quem a rodeava constrangido, virava sua maior diversão.
Sentia um prazer indescritível, quando não entendiam o que falava, e com uma crueldade ferina, dava a explicação mais difícil e complicada que poderia existir, somente pelo prazer de ver a dúvida pairando no ar.
Tinha uma inteligência fora do comum, mas nunca conseguia terminar algo, devido a constante insatisfação que a cercava, sua vida era um ir e vir de cursos, viagens, empregos de somente um dia, ela brincava dizendo que não nascera para ser de um lugar só, era como o vento, que vive mudando de lugar.
E agora lá estava ela, ali em sua sala, sentada, com os pés para acima, e cantarolando uma melodia qualquer, uma mania sua.
Não conseguia proferir uma palavra, estava confuso, quando pensou que tudo estava indo bem, que sua vida estava entrando nos eixos novamente, eis que surge do nada, aquela figura que tanto o desestabilizou, que mudou seu mundo e sua vida, que antes dela era segura e normal.
Até gostava da normalidade, não queria aquele turbilhão de emoções novamente.
Depois do que pensou ser uma eternidade, mas que na verdade eram somente alguns minutos, perguntou a ela o que fazia ali aquela hora da noite, no meio do nada, porque sua cabana ficava à alguns quilômetros da estrada mais próxima, e somente de dia podia se chegar ali com segurança, sem o risco de perder-se na mata fechada.
Ela olhou-o profundamente, e fixando seus olhos nos dele, respondeu que tinha ido a sua procura, o que mais estaria fazendo ali, no meio do nada.
Ficaram se olhando, sem dizer nenhuma palavra.

Não queria pensar, deu sua cama para que ela pudesse dormir, disse que não conversariam aquela hora, amanha seria outro dia, e na primeira hora, mandaria que ela se fosse, não à queria ali.
Ela como se nada tivesse ouvido, pegou suas coisas e seguiu direto para se lavar, ele ainda a viu, quando saiu do banheiro, vestia uma camiseta velha, que reconheceu, havia sido sua, estava mais linda do que nunca, seus pensamentos foram rápidos, e quase esqueceu de tudo, a vontade que tinha era de beijá-la e amá-la ali mesmo, mas conteve-se.

Apagou a luz, e enrolou-se como pode em alguns cobertores no pequeno sofá da sala.
Seus pensamentos estavam confusos, ela ali, tão perto, tudo o que não queria lembrar, tudo o que somente queria esquecer, de volta em sua vida.

Fechou os olhos e caiu no sono, sonhando com uma vida , que agora, já tomava outro rumo.

*continua

 
 
 
 

Postar um comentário 18 comentários:

Alisson da Hora disse...

lendo atentamente, aguardando a conclusão...

beijos ansiosos...

2 de dezembro de 2008 15:40

Cassio Peres disse...

Olá, vi o seu comentário,obrigado e aproveitei para olhar o teu texto, lindo por sinal... vou ser ousado a ponto de dizer que identifiquei o meu jeito de escrever com o teu... enfim abraço

3 de dezembro de 2008 12:47

Sun(shine) , «3 disse...

"Ela olhou-o profundamente, e fixando seus olhos nos dele, respondeu que tinha ido a sua procura, o que mais estaria fazendo ali, no meio do nada.
Ficaram se olhando, sem dizer nenhuma palavra."


Ai que romântiiico (LL)
Nossa, até veio arrepio...
adorei adorei, continuaa !

:D
Beijinhos

3 de dezembro de 2008 20:09

Mariah disse...

Sempre soube que eras especial, desde a primeira vez que te vi, bem pequetita, acabavas de nascer, agora sei que aquela menina, pequeninha, que trocava brinquedos por livros aos 4 anos tinha que ser muito especial. Continua estou curiosa minha princes.
Te amo muito e tu escreve como poucos, me orgulho muito de teres me escolhido como mãe!

3 de dezembro de 2008 23:33

lis disse...

Renata,
Nossa, adorei! Ia fazer um comentário (outro), mas acho que fiquei ansiosa, rsss. Vou esperar a finalização para comentar o que me veio à mente.


Beijos!

3 de dezembro de 2008 23:35

João da Silva disse...

Eu ia falar, mas a minha caçulinha já falou pela família, pelo nosso DNA.
Renata, você me arrebatou em torvelinhos de encantos intermináveis. Amei. Amei...
Beijos carinhosos, com aroma de rosas, do João

4 de dezembro de 2008 13:32

O Profeta disse...

És uma fantástica ficcionista...


Doce beijo

4 de dezembro de 2008 14:28

MADRUGADA... disse...

Brilhante texto!

Se tem continuação, pois então, continue por essa estrada.

cumprimentos.

4 de dezembro de 2008 19:13

tossan disse...

Estou gostando dos capítulos. Aguardo o próximo. Vc escreve muito bem e fica gostoso de ler. Bj

6 de dezembro de 2008 15:23

Lua. disse...

Quando li suas palavras eu as vivi como se eu estivesse na cabana, me senti com se sentisse o turbilhão de emoções de que falou.
Foi ótimo e é isso que mais me alegra em ler, principalmente textos bons como o seu.
Bjs.

6 de dezembro de 2008 21:44

Marcos Campos disse...

Olá Renata!!
Muito bom!!
Bem, como todos aqui, espero a continuação...rsrsrsrs
Beijo!

7 de dezembro de 2008 17:18

D.Ramírez disse...

Um romance digno mesmo de autores best sellers...e nao to falando por falar ou pra puxar sardinha nao. Já comentei que você tem um Time que nos deixa querendo mais, pq nos prende e nos faz entrar na história e isso é bom, pq nos dá vontade de ler o próximo capitulo da novela...
Besos

8 de dezembro de 2008 08:26

edson marques disse...

Meu aplauso!

Gostei desse novo trecho. Aguardo o próximo.



Abraços, flores, estrelas..

8 de dezembro de 2008 15:29

Melsavinon disse...

Ai que poderosa essa pessoa!!!!TA arrazando!!!!!bjs

8 de dezembro de 2008 19:09

Clara Mazini disse...

Aguardo a continuação! Um beijo!

9 de dezembro de 2008 08:51

João da Silva disse...

Minha querida, saiba que há ao menos um leitor seu ávido pela continuação, ok?
Beijinhos para lá de carinhosos, todos com aroma de rosas, do João!

9 de dezembro de 2008 13:31

Sun(shine) , «3 disse...

Agradeço do fundo do coração as tuas palavras :) foram muito reconfortantes aqui do outro lado... E sim, tenho a certeza de que, se estivessemos próximas fisicamente, teríamos muito para falar !Apesar de não estarmos, contento-me com a tua companhia, o teu carinho e as tuas palavras por aqui :) E tento retribuí-las a todas elas ...


Se esse matulão aqui em cima é o meu irmão?
É sim senhora.
Estamo é fisicamente longe...

:)

beijinho grande em ti*

9 de dezembro de 2008 17:40

lis disse...

Renata,
Passando para dizer um oi e conferindo pra ver se tem continuação...achei ter visto...

beijos

9 de dezembro de 2008 21:51

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