A Estrada.(continuação)


O cheiro do café penetrou em suas narinas, a muito não acordava assim, lembrou de sua infância, quando sua mãe preparava torradas e o café fresquinho enchia a casa com um aroma delicioso.
Virou-se e a viu, entre xícaras e pratos, tentando fazer da pequena cozinha um restaurante francês.
Sentiu-se bem, estranhamente feliz, algo estava diferente.
Ela vestia a mesma camiseta, e seu corpo todo parecia dançar, as pernas bem torneadas, mostravam o inicio de uma roupa intima branca, ficou ali espiando, como um adolescente, ela continuava linda, seu corpo ganhara formas mais consistentes, o cabelo curto conferia-lhe uma ar jovial, que beirava a inocência sem perder a sensualidade, seu encanto estava exatamente nisso, no ar de menina, mas com uma malícia no olhar que o deixava desconcertado.
Ela estava feliz, e não queria estragar aquele momento, começou a falar sobre sua vida, suas viagens, seus muitos projetos, contou-lhe sobre sua vida também, as mudanças que havia planejado para si, olhou-o séria, e viu o desejo em seu olhar.
Ela aproximou-se, e segurando em seu rosto pediu-lhe perdão, por tudo, por suas loucuras, suas palavras desmedidas, seu jeito passional e seus devaneios.
Seu perfume era atordoante, inebriante, ela era como um imã, e o desejo que sentia tornou-se incontrolável, puxou-a para si e a beijou, era um beijo forte, que guardava toda a vontade e o ardor de uma paixão que agora ressurgia, com toda a força.
Despiu-a como se fosse a primeira vez, analisando cada pedacinho de seu corpo, e relembrando de cada detalhe, que durante muito tempo fez questão de esquecer, ela tremia, como uma menina, e deixou-se possuir sem nenhuma resistência.
Amaram-se ali mesmo, com uma vontade desmedida, que ultrapassava todos os limites, beijava-a com a voracidade de um louco, tocava-a, acariciava-a, percorria todos os recantos de seu corpo, deliciado pelo prazer que causava.
Via em seu rosto a paixão e o medo, de que tudo voltasse a ser como antes.
E ele sabia, era a ultima vez, esse pensamento o fez arremeter com mais força, e olhando-a nos olhos, viu surgirem lágrimas e um pedido de perdão.
Caíram exaustos, ela aninhada em seu peito, como uma menina indefesa, dormia um sono tranqüilo,em sua face a paz e um leve sorriso de felicidade.
Levantou-see vestiu-se, sabia que não poderia levar adiante.
As lembranças estavam todas surgindo como um turbilhão, seu gosto ainda permanecia em sua boca, e o cheiro do amor ainda estava em seu corpo.
Mais uma vez parou ao lado dela, e olhou-a, tão vulnerável, tão desprotegida, mas sabia, ela era como um felino selvagem, mais dia menos dia ia querer sua liberdade novamente.
Tinha consciência que dependia dele, tinha tomado sua decisão, e sua vida não mudaria mais por causa dela.
Ela acordou feliz, espreguiçou-se, revirando-se no pequeno sofá da sala, sentiu-se renovada, ainda sentia seu cheiro, e seu corpo dolorido a fez lembrar do que havia acontecido, ele ainda a amava, ela sentiu isso.
Levantou-se, e vestiu a velha camiseta dele, procurou-o pela casa, ele não estava.
Saiu na rua, um vento gelado bateu em seu rosto, olhou para os lados, e o viu, perto da estrada que margeava a frente da cabana, olhando para o horizonte.
Ela chegou por trás e abraçou-o com força, ele não retribuiu o gesto, ficando imóvel e silencioso.
Beijou-lhe o rosto, ele virou-se afastando-a, com dúvida e uma certa tristeza olhou-o, ela já sabia, sabia o que tinha deixado para trás aquela noite, e no seu olhar, percebeu que o que tinha acontecido ali fora somente um desejo que havia sido sufocado pelo tempo.
Sua indiferença doía, e agora sabia a dor que havia causado, e tudo que havia perdido por seus arroubos e loucuras.
Ele não a queria mais, deixou isso claro, suas palavras foram duras, ele estava mudado, o amor que haviam experimentado algumas horas antes era somente desejo, não mais que isso.
Olhou para a pequena varanda da casa, suas coisas já estavam lá, ela ainda tentou em vão pedir para ficar, mas ele não cedeu, seu coração estava apertado, mas tinha que mudar essa história, ela era como o vento, ia mudar seu rumo, ele sabia disso, e saberia onde encontrar a felicidade, assim como ele havia encontrado a dele.
Com um beijo no rosto despediram-se, ainda viu quando ao longe ela virou-se para um último olhar, provavelmente o último de suas vidas.
Sentado na pequena varanda, a xícara de café em uma das mãos, e um alívio no peito, não queria mais lembranças, não queria mais viver no passado, de agora em diante seria a visão da pequena estrada e de uma nova vida, que finalmente, estava pronto para viver.
**
Um agradecimento especial para meu querido "co-autor", André Ckless, que com seu jeito sincero e espontâneo, viveu, sugeriu, e participou intensamente na conclusão desse conto.
Sem ele, com certeza não seria a mesma coisa.

 
 
 
 

Postar um comentário 14 comentários:

Sun(shine) , «3 disse...

"Mais uma vez parou ao lado dela, e olhou-a, tão vulnerável, tão desprotegida, mas sabia, ela era como um felino selvagem, mais dia menos dia ia querer sua liberdade novamente.
Tinha consciência que dependia dele, tinha tomado sua decisão, e sua vida não mudaria mais por causa dela.
(...)
Beijou-lhe o rosto, ele virou-se afastando-a, com dúvida e uma certa tristeza olhou-o, ela já sabia, sabia o que tinha deixado para trás aquela noite, e no seu olhar, percebeu que o que tinha acontecido ali fora somente um desejo que havia sido sufocado pelo tempo.
(...)"

É estranho, senti um arrepio na espinha enquanto te lia, enquanto me aproximava deste final, que nem sempre é um final, visto que, as histórias sempre continuam na imaginação de cada um.
Mas descreveste exactamente o que me aconteceu há não muito tempo atrás, fizeste-me lembrar de coisas que já havia esquecido..

Bem, adooooorei !
Que lindo lindo lindo! Apesar de triste...deve ser tambem por isso que me identifiquei tanto..


beijinhoo*

10 de dezembro de 2008 21:39

lis disse...

Renata,

Ainda na primeira parte, eu lembrei de uma história semelhante. Imaginei um tipo de pessoa, que adora ir e vir da vida das pessoas, machucando.. E sempre que a ferida está sarando, ela reaparece, para não se fazer esquecer...

Há que ser muito forte para chegar nesse ponto, definitivo! Mas o alívio é grande de fato.

Muito bom, adorei!
Beijos

10 de dezembro de 2008 22:29

João da Silva disse...

Não é possível! Minha caçula sempre chega antes de mim para falar! Rssss...
Que final forte! Eu me senti, de repente, em alguma das imagens fortes e obtundentes de Ingmar Bergman e a força de algumas cenas de Pasolini. O contraste da completude e da vacuidade. O pensar-se que há algo, e nada haver.
O enredo nos captura dramaticamente, nos faz viver. Linhas e entrelinhas, juntas, põem-nos na mente um torvelinho de idéias inenarráveis, condoreiras, tristes, mas muito... muito vida! Muito verdade, muito nós.
Adorei, como já vem se tornando hábito. Parabéns a ambos. Foi um imenso prazer ler isto.
Beijos com aroma de rosas, do João

10 de dezembro de 2008 23:45

D.Ramírez disse...

A Sun falou mais ou menos oque eu ia falar sobre o trecho do arrepiar..
Envolvente mesmo tudo isso, com uma capacidade além do imaginado. Brilhante desfecho.
Acho que surpreendeu a todos, pq os comentários foram envolventes, como envolvente foi essa hist´roria..
E se não for pedir muito, traga logo a proxima..rs

Besitos!!!

11 de dezembro de 2008 08:36

O Profeta disse...

Fabuloso texto...


Doce beijo

12 de dezembro de 2008 13:47

MADRUGADA... disse...

Excelente capacidade narrativa.

Bjs

12 de dezembro de 2008 19:11

Alisson da Hora disse...

imagens fortes...profundas...

;)

12 de dezembro de 2008 23:34

Cadinho RoCo disse...

Quanto mais nos desapegamos do passado, mais presentes ficamos em nós mesmos.
Cadinho ROCo

13 de dezembro de 2008 02:37

Marcos Campos disse...

Olá Renata!!
Super legal, acho que vc deveria repetir a dose, com contos mais longos, a atmosfera que vc cria é muito legal, os conflitos, as fraquezas e vitórias humanas são muito bem retratadas em palavras por vc!!
Parabéns, foi muito legal acompanhar...
Beijo!!

13 de dezembro de 2008 14:36

tossan disse...

Cara forte! Texto ótimo, Vida dura! Se fosse comigo eu nem sei, liberdade, medo, vida nova, a gente não sabe, nem ele! Bj

13 de dezembro de 2008 15:37

Aline Dias disse...

Incrível, me fez sentir o cheiro do café forte de manhã em algum hotel...
Lindamente escrito, parabéns.
Beijos, querida ;)
Obrigada por teus comentários sempre tão cativantes.

14 de dezembro de 2008 04:09

Tata disse...

Oi Renata,

Descobri seu blog através do blog de um amigo e vim visitar.

Nossa perdi a 1º parte da história, mas vc tem uma facilidade notória para narrativa.

Textos com descrição de detalhes são ótimos!

ADOREI AQUI!!!!

Voltarei sempre, já que vou te acompanhar para não perder mais nenhum texto!

bjinho

15 de dezembro de 2008 19:04

Melsavinon disse...

LINDONA!!!!
Vc e o conto!
Bjs e boa semana!

15 de dezembro de 2008 21:09

Philip Rangel disse...

Parabens pelo conteudo aki...vc pensa mesmo hein???

16 de dezembro de 2008 23:21

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