Não queria mais finais franceses, onde acendem-se as luzes,sobem os créditos,e fica-se lá sentando, tentando entender o final.


E existiu um final?

A trilha sonora perfeita, as falas certas na hora certa.

A intensidade extrema e logo após, o vazio absoluto...


............


Levantou-se da sala e dirigiu-se a saída.

Já que realmente não existia um Fim, inventaria o seu.











 
 


Inconstante.



Porque a mudança é inerente ao ser humano.

 
 



Deitada de bruços sobre a cama desfeita, mexia nos cabelos despreocupadamente.

A penumbra do quarto fazia seu corpo nu e molhado pelo suor, parecer ainda mais tentador.


Pensou no que havia acontecido a poucos minutos, e um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.

Passou a mão entre as pernas, estava úmida, e na boca o gosto agridoce de seu desejo ainda era forte.

Pensou...
Ele ainda estava presente em sua vida, em seu coração, em seu pensamento, mas principalmente...

Dentro de sua calcinha.


* É...a vida como ela é.








 
 

Luxúria

Perco as rédeas
Quando você
Demora, devora, implora
E sempre por mais (...)

(...) Eu sou navalha
Cortando na carne
Eu sou a boca
Que a língua invade
Sou o desejo
Maldito e bendito
Profano e covarde

(...)Sou o encaixe
O lacre violado
E tantas pernas
Por todos os lados
Eu sou o preço
Cobrado e bem pago
Eu sou...
Um pecado capital...



* A luxúria sempre me vençe.


 
 


Sem meias palavras.

Sem meias verdades.

Sem meias vontades.

Sem meios para tentar se enganar e tentar ser meia boca, ou meio termo ou meio assim ou meio assado.

Sem meias teorias ou histórias inventadas e mal acabadas.


Não quero nada pela metade.
Porque dentro de mim não cabe o meio, não cabe o avesso, não cabe o singular, não cabe o subjetivo.


Quero o inteiro,o direito, o plural e o substantivo.


Quero a frase completa e a palavra correta.


Quero somente aquilo que sei... que em todos os momentos, posso ser aquilo que sou.





 
 




*E ela me olhou com aqueles olhos.

Olhos do demônio, em um rosto com proporções tão angelicais.



É...no céu além de nuvens, existe sexo, drogas e palavrões.






* Conversa de bar.

 
 


Se sua resposta for não.




Será que posso mudar sua opinião?



Quem sabe ... porque não?





 
 


Olhou-o demoradamente,estava aterrorizado,implorou,chorou,rogou que não o deixasse.

Não sabia direito o que sentia, se era raiva, tristeza, rancor ou mágoa.

Muito do que havia passado era culpa de suas atitudes tresloucadas, sua vida fora toda em função dele, esteve sob seu domínio, vivendo, sentindo e fazendo tudo sem pensar, sem medir as conseqüencias, sua liberdade viceral a atraía, era impossível resistir.

Uma mistura de satisfação e ansiedade tomou conta de seu corpo, a sensação de estar com ele nas mãos era inexplicável, seu corpo tremia e o suor escorreu por suas costas.

Agora estava ali, indefeso, pronto para ser abatido.

Desferiu somente um golpe, e esse foi fatal.

Não chorou sua morte.

Olhou-o mais uma vez, seu coração,agora repousava inerte e sem vida.


Saiu sem olhar para trás, suas emoções já não existiam mais.
Seu peito estava vazio.


Agora estava vazia.

 
 

A sensação da entrega, mesmo que por pouco tempo.

Bocas, braços, pernas, beijos, gostos, cheiros, o hálito quente o gozo profundo e a inércia após o ato.

A respiração ofegante, o coração disparando incontrolável.
A boca pede, o corpo implora a pele suspira.
Odores se misturam, e no ar paira o cheiro adocicado do sexo.

A perda temporária dos sentidos, e o assombro ao recuperá-lo e perceber que tudo não passou de um devaneio sem medidas.

Deliciosamente obsceno.

Maliciosamente puro.

O renascimento de tudo o que quero, e a morte de tudo o que sinto.

A vida passada a limpo, com cheiro e gosto de sacanagem.






 
 


confusão
tristeza
insônia
vazio
ansiedade
lágrimas
sorrisos
tremores
temores
cegueira
loucura



amor....
*o resto... é histórinha pra boi dormir.

 
 


Insônia

Olhos parados, a penumbra do quarto é hipnotizante e a cabeça funcionando frenéticamente cria o clima perfeito para as mais loucas fantasias.

O coração dispara descontrolado.


As paredes brancas aguçam meus sentidos e meu olhar se fixa no pequeno ponto ao lado da cama.

Desde quando estava lá?

Sombras dançam nas paredes e meu pensamento se perde no meio de teorias, segredos, tristezas, alegrias, frustrações, desejos, perversões... tudo surge como um turbilhão, sem medidas, deixando a noite longa como se não fosse acabar.


Depois de duas noites sem dormir a vida toma novas formas, novas cores, aquilo que antes parecia simples torna-se um fardo, o pensamento mais puro, transforma-se em algo assustador.




A cama torna-se pequena, os lençois armadilhas, as roupas insuportáveis.

Olho o relógio, é como se estivesse parado, é como se não trabalhasse tornando tudo lento e agoniante.

Os primeiros raios de sol despontam, e meus olhos parecem duas poças de água parada, sem vida.
O dia começa em camêra lenta e assim vai ficar até a noite chegar, transformando tudo em sonho.
Quem sabe o que acontecerá, só a noite dirá.





 
 

Relembrando.

Um dia meio cinza, meio chato, meio aguado, meio meia boca.
Quase se arrastou, no vai e vem dos pianos, flautas, violinos e fagotes.

Os vidros embaçados e aquele som perdido pela casa, a caneca de chá quente o computador ligado em uma página qualquer que nem lembro, tudo bem, nem tava interessada mesmo.
Uma conversa interessante,outra nem tanto, e meus pensamentos iam longe, tão longe que quase me perdi no meio deles.
Risadas, e uma parada para pegar a caneca de chá.
Despedidas, e o som dos violinos tomam forma novamente.
Meu pensamento volta a se perder, uma música e lembranças que me fazem sorrir apesar de tudo.

Fim do dia, um mar de guarda-chuvas coloridos e pessoas sem rosto.
Os fones nos ouvidos me fazem viajar, e ir onde só eu posso chegar.
Chegando em casa a melhor surpresa do dia.
Em meio a tantos cinzas e sons arrastados, um sorriso cor de rosa e um beijo com gosto de pipoca.
Tudo se ilumina e volta a ser como deveria, risadas alegres, abraços quentes, cheiro de biscoito e gengibre.
E o doce som de palavras feitas para guardar no coração.
A vida sempre deveria ser assim...

 
 




O cheiro de terra molhada era inebriante.

A chuva batia nas pedras,lisas,sólidas,fortes.

A rua estava deserta, somente ela e seus devaneios.

Seus pensamentos iam perdendo-se,como as gotas d'água que caiam no chão, grandes e pesadas.


Caminhou durante muito tempo, a água caindo-lhe pela face.
Lavando tudo, seus pensamentos, seus sentimentos, sua alma.

Gostava da sensação de estar limpa, nova. Pura.


Seus pés agora andavam rápido, tinha vontade de correr, a chuva agora banhava seu corpo.

No meio de todo aquele frênesi, onde seu corpo fundia-se com sua alma, somente uma frase insistia em ecoar em sua mente.



"Não há nada mais irresistível, que uma bela coleção de defeitos."


Continuou na chuva com o rosto voltado para o céu, contando as gotas, que agora, beijavam-lhe o rosto.

 
 

Noite



A noite chegou.
E ela irritada demais com o rumo da Opereta que era sua vida, resolveu ir para casa. E ficar sozinha.
Na falta de algo interessante.
Preferia sua própria companhia.

 
 

Tarde.
A tarde se arrastava.
Ela não conseguia se concentrar em nada.
Tanta coisa à fazer, e nenhuma vontade. O escritório fervia. Ela cheia de tédio só pensava em uma coisa.
Passou a tarde a olhar sites de pornografia.
Devassa todos diziam.
Tinha um fraco por esse conteúdo. Gostava de ver as posições, como faziam, as bocas, os braços, sabia que muita coisa era falsa e impossível de realizar, mas adorava.
Gostava especialmente dos que pareciam caseiros. Eram os melhores.
Ficava muito excitada, e depois de alguns pequenos vídeos, teve que ir ao banheiro, masturbava-se mais de uma vez ao dia.
Safada, era isso que ela era.
A noite ia demorar a chegar.
Mas sua imaginação já ganhava asas.

 
 

Manhã.

Acordou com o despertador tocando, estava no meio de um sonho delicioso e obsceno.
Despertador nojento, teve raiva dele.
O suor escorria por seu pescoço, e a roupa estava encharcada apesar do frio.
O corpo não queria levantar, por ela ficaria mais tempo na cama.
Pensou em tudo que tinha para fazer durante o dia, e cansou só de lembrar.
Queria era ficar ali... sem fazer nada.
Colocou a mão entre as pernas, um pensamento malicioso passou-lhe pela cabeça.
Ficaria mais um pouco.

Era uma pervertida! Pensava nisso o dia todo. Tudo bem, quase o dia todo.
Uma depravada, diziam todos.

Mas também, não importava-se com os outros, aliás, não importava-se com nada, gostava de chocar.
Seu jeito, modos, tudo era fora dos padrões.
Tinha um poder sobre o sexo masculino que era fascinante, e procurava a companhia deles sempre, mulheres eram chatas, enfadonhas, com seus choramingos, papinhos cor de rosa.... detestava.
Tinha uma ou duas amigas que ainda conseguia manter, e só.
A maioria de seus amigos eram homens, e metade deles haviam sido seus amantes.
Alguns haviam se apaixonado, mas não era mulher para um homem só.
Tinha uma teoria, uma não, várias.
Mas uma delas era que achava uma perda de tempo e um sofrimento desnecessário tentar ser algo que não era, tentar encaixar-se em uma vida certinha para manter aparências, para satisfazer outrens, eles, se quisessem, que se encaixassem na dela.
O resto, era o resto.
Mas isso é outro assunto.

Hoje estava para o perigo, levantou-se da cama de um salto.
O frio ja não atrapalhava mais, o calor já tomava conta de sua pele..
Um sorriso surgiu em seus lábios, e seu corpo estremeceu só de imaginar o que faria mais tarde.
Pegou o telefone, já sabia com certeza para quem ligaria.
Bom, já que teria que esperar até a noite, ia satisfazer-se à sua maneira, correu para o chuveiro, meia hora a mais meia hora a menos, não faria diferença.
.....

 
 









Tenho outra por dentro.










Um perigo isso.

 
 




Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim (...)



(...)E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis(...)

 
 

Afinal. O que é o amor?
É algo que sentimos? Que vivemos? Que escolhemos?



Que queima o corpo a alma, que faz tremer no calor e suar no frio.
Não podemos explicar quando ele chega, e nem tão pouco quando ele vai.
Pode surgir do nada, de onde menos esperamos.
Sem ele nos sentimos perdidos,e quando finalmente o temos em nossas vidas, simplesmente o abandonamos ou viramos as costas cruelmente,em alguns casos fingimos que ele não está lá e o deixamos em um canto qualquer.

E porquê?

Acredito que o amor é para poucos, é para corajosos que possuem a impetuosidade para sentir tudo,viver tudo, sem reservas, sem convenções, sem restrições...

E principalmente, sem vergonha de demostrar isso.

Mas falo de amor verdadeiro, não das paixonites que diariamente aparecem em nossas vidas.

Não as acho ruins, elas servem para muitas coisas, uma delas inclusive,na minha opinião, nos preparar para algo maior.

Já falei algumas vezes sobre o tema, e nem quero ser piegas tentando explicar algo que não precisa ser explicado, não precisa ser teorizado, não precisa ser entendido.
Palavrinhas doces, melosas, tentativas vãs de demonstrar algo, que muitas vezes somente um olhar pode dizer.


É louco? Faz perder a razão, os sentidos? Sim. Digo que sim.


Tudo tem sido uma surpresa na minha vida nos últimos meses.
E assim espero que continue sendo...
Não quero dias cinzas,saudações forçadas, não quero lembranças amargas e muito menos sorrisos sem graça.
Não quero discussões sem motivos, abraços sem emoção.


Não quero um amor pela metade,não quero amar pela metade.

Quero sentimento e emoção.

E quero que venha naturalmente... do coração.









 
 





Sou meu maior inimigo.


 
 



Sentada na sala vazia, o pequeno bilhete entre os dedos.

Palavras simples. Escritas a mão.

(...) A mulher do sorriso constante, do sonho constante... querer ser feliz.(...)


Sabia o que queria dizer. Leu e releu dezenas de vezes.

Mas o que havia escutado doía. O bilhete era somente a reparação (ou a tentativa) de algo, que ja sabia ser irreparável.


Como posso amar alguém assim? Que ama incondicionalmente? Foi o que ouviu.

As palavras ecoavam em sua cabeça. Tudo que havia feito, fora amar. Sem reservas.Incondicionalmente.

Realmente a decisão estava em suas mãos. Sempre estivera.

Como um jogo.
De palavras.
De sentimentos.
De mãos.
De corpos.


Olhou a volta. Sem lágrimas dessa vez.

Sem melodramas.

Sem despedidas.







 
 


Não sei bem para onde ele foi.


De uns tempos para cá tem me deixado a deriva, a mercê de idéias tão malucas, que nem eu mesma me reconheço.

Tenho procurado por ele em todos os lugares, mas ele insiste em fugir, se escondendo nos cantinhos mais complicados, mais obscuros.

As vezes me prega peças que me deixam atordoada, penso que seria muito melhor viver sem ele.

Afinal,porque sofrer tanto, pensar tanto, querer tanto, racionalizar tanto, ponderar tanto.

Se ele me acompanha, nada disso acontece, tudo fica certinho, no lugar.

Em alguns momentos corro ele da minha vida, eu mesma, com meu jeito meio doidivanas, passional, intensa(como muitos gostam de falar).

As vezes me faço de certinha, só para tê-lo por alguns dias ou somente por algumas horas comigo.

Mas quando volto a ser eu mesma, lá vai ele,embora novamente.

Pois é... se alguém encontrá-lo por aí, me avise.



Meu Juízo anda perdido, e acho que esqueceu o caminho de casa.

 
 




O cheiro ainda estava em sua pele. Mesmo que quissese não conseguiria esquecer.


Sua vida sempre havia sido fora dos padrões, não poderia ser diferente com seus amores.

Os mais loucos, os mais insanos, os mais devastadores.

Carregava o gen da loucura, da volúpia, do desejo incontrolável da paixão.


Seu corpo pulsava, tremia.

O suor ainda grudado no seu corpo, persistia. E aquele cheiro a enlouquecia.
A voz em seu ouvido. A lingua em sua boca.

Como poderia resistir. Era sua perdição, ela sabia.


O corpo exausto estendido na cama. A força. A vontade. O desejo.


Todas as suas decisões sempre caiam por terra quando ele aparecia.


Esquecia tudo. E deixava-se levar por seus desejos, suas loucuras mais íntimas e mais secretas.

Ele a conhecia, cada cantinho obscuro de seu corpo.




Sua fraqueza? Sim.


A mais deliciosa delas, e também a mais letal.


 
 

" Camélia ficou viúva.
Joana se apaixonou.
Maria tentou a morte, por causa de seu amor.

Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado, quando penso no futuro não esqueço meu passado."




(...) Danço eu, dança você na dança da solidão.(...)


 
 


A janela estava fechada. As cortinas não mais se abriram.

Ela não mais passara com seus fones, sua sacola, cantarolando sua música preferida.
Ele durante dias esperou.

No mesmo horário, no mesmo lugar.

Não sabia o que havia acontecido. Ela simplesmente sumira.
Depois de alguns dias, resolveu perguntar ao porteiro do pequeno prédio cor de rosa, onde estava a menina de cabelos curtos, que todas as manhãs dali saía.

O porteiro com os olhos marejados, lhe contou.

A noticia era triste. Depois de alguns dias sem movimento algum no pequeno apartamento, resolveram bater na porta.
Viram a menina entrar, sabiam que era sozinha, não tinha parentes, nem amigos, vivia só.
Era doce, sorria pouco, conversava pouco, mas era boa menina, disse o porteiro.

Bateram sem ter resposta, resolveram então arrombar a porta.
Quando entraram a visão foi a mais triste que ja tinha presenciado, falou com a voz embargada o porteiro.

Na cama, encolhida como um bebê, estava a menina, branquinha, enrolada em um cobertor.

No início, acharam que dormia, tamanha a paz que seu rosto possuia, mas chegando mais perto viram que não mais respirava, e sua pele estava gelada como a neve.

Em uma das mãos, um pedaço de papel.

Com alguma dificuldade, conseguiram tirá-lo, dos dedos agora frios e sem vida.
Ali, com uma letra que quase ja não se via mais, talvez por ter sido manuseado muitas vezes, puderam ver uma carta, de alguém que se despedia dela, pedindo que não mais a procurasse.

Do lado da cama, alguns remédios.
Quando terminou de contar a história, o porteiro chorava.

Ele, não conseguia pensar em nada.
Só pediu um único favor, se podia entrar no apartamento.

O porteiro possuia a chave, disse que sim, já que depois de toda aquela tragédia ele tinha sido a única pessoa que havia perguntado por ela, não havia o porque de não deixá-lo entrar.
Chegaram na porta, ele tremia, um enorme sentimento de tristeza invadiu seu coração, perguntou se podia ficar só, eram somente alguns minutos, não mais que isso. Respirou fundo e entrou.
Era pequeno, mas organizado, possuia poucos móveis, alguns porta retratos, uma pequena cama, um aparador e um guarda-roupa em um dos cantos.
Era somente uma peça e um banheiro.

Procurou a janela, onde muitas vezes a viu, as cortinas, agora cerradas, tinham um ar triste, como se chorassem.
Notou ao lado da cama, uma caixinha, abriu, lá dentro um par de pequenos brincos de pérolas, uma medalhinha e uma foto desbotada, de uma moça jovem, com um lindo bebê no colo.

Não acreditava no que havia acontecido, tanta coisa queria ter falado, tantas coisas poderiam ter feito.
Naquele dia cinza, quando seus olhares se cruzaram, ela lhe pediu por ajuda, suplicou, e ele, covarde, não atendeu seu chamado.

Agora estava morta.

Quando estava prestes a sair, no cantinho da janela olhou o pequeno vaso, com a plantinha miúda que ela cuidava, como se fosse seu jardim particular.

Levaria consigo e cuidaria dela, onde quer que ele estivesse, um pedacinho dela iria junto.
Durante muitos anos no mesmo horário, continuou passando por aquela rua, por aquele prédio com a enorme porta dourada.

Levou consigo a lembrança dos dias de sol, em que ela cantava pela rua, carregando a pequena sacola.
Seu amor foi fiel até o último dia de sua vida, quando então finalmente, podê encontrá-la.





 
 



Cansei de noites insônes, dias longos, sorrisos forçados, palavras doces tentando(ou querendo)dizer coisas que não são sinceras.

Chega te tentar achar respostas para tudo,sendo que elas não existem.


Meu coração está vazio,confuso,com raiva... e na realidade eu mesma não faço nada para mudar isso.


Frases feitas não deveriam mais me conquistar,o clichê na realidade, acho que até me atrai, pois acabo sempre no mesmo filme, mesmos finais, mesmos personagens, mudando somente os diálogos, alguns mais fortes,outros mais doces,mas sempre com a mesma despedida fraca e as desculpas de sempre... Foi bom... mas quem sabe...

A merda com isso!


Na verdade... sou um reflexo das minhas escolhas, e nem posso dizer que me arrependo, pois nunca faria isso...

Arrependimentos não são para mim mesmo.


"Se preserve!" Eu ouvi.


Então tá pessoa, me preservarei, de tudo.






 
 


Vinha pela rua perdida em seus pensamentos.

Caminhava lentamente, o sol esquentando seu rosto, o frio intenso cortanto sua pele, mas parecia estar feliz.

Ele a observava à algum tempo, ela passava por ali todos os dias, cabelos curtos, um jeito simples, puro, limpo.

Carregava sempre uma sacola nas mãos, um livro na outra, fones nos ouvidos, e uma manta enrolada no pescoço.

Seus olhos escuros eram sinceros, ja haviam se cruzado algumas vezes, mas ela não o notara.

Todos os dias ela entrava naquele prédio cor de rosa da pequena rua do centro de Porto Alegre, um prédio antigo, com uma grande porta dourada.

Dezenas de vezes parou em frente ao seu prédio, sabia qual era sua janela, conseguia ver quando abria as cortinas brancas e transparentes para deixar o ar entrar, e quando respirava fundo, como que quisesse sentir-se viva.

Sabia sua rotina, quando molhava a pequena plantinha miúda, que ficava no parapeito da janela, quando cantarolava pela sala, quando falava ao telefone. Sabia tudo, mas não sabia seu nome.

Ele a cuidava. Um amor platônico puro, sincero.

Algumas vezes viu seu olhar triste, perdido, ja tinha visto lágrimas naqueles olhos escuros.

Nesse momento sentiu raiva, quem poderia fazê-la chorar?

Viu quando cantava pela rua, com os fones nos ouvidos, sorrindo... Sentiu uma pequena inveja, de quem ou o quê haviam causado tamanha alegria.

Hoje, porém, estava triste. Seus olhos estavam úmidos, caminhava lentamente, sem pressa, não carregava o livro, não tinha os fones nos ouvidos.

Somente a pequena sacola, e alguma coisa na outra mão, que não conseguia visualizar o que era.

Uma fina chuva caia naquele dia, um dia cinza de inverno no Sul.

Ele, mesmo assim, estava lá, no mesmo lugar a sua espera.

Quando ela entrava no pequeno prédio, seus olhares se cruzaram.

Os olhos marejados, continham uma tristeza que ele jamais vira.

Segurava um pedaço de papel amassado entre seus pequenos dedos, vermelhos pelo frio.

Segurou o olhar o quanto pôde, ela o fitava, quase pedindo por algo, querendo algo.

As palavras ficaram presas, não conseguia abrir a boca, esperara tanto por aquele momento, e o medo o impediram de falar qualquer coisa que fosse.

Ela então, baixando a cabeça, entrou no pequeno prédio cor de rosa, da pequena rua, no centro de Porto Alegre.

Ele ficou ali, parado.

Virou-se e caminhando lentamente na chuva, seguiu seu caminho.

Amanha estaria ali, novamente a sua espera.

















 
 





Endiabrada hoje.
*********

 
 


18:00.

Arrumou a cama como sempre fazia, mas dessa vez com mais capricho, abriu o armário, ali estavam suas roupas, seus sapatos, seus pertences pessoais, tudo aquilo que lhe era tão familiar, sentiu-se estranhamente feliz, era o que possuía, roupas, uma cama, uma estante com seus livros preferidos, esses não deixaria para trás, fotografias antigas que retratavam um tempo que não mais existia, rostos que agora faziam parte do passado, e claro, seu lindo sofá de veludo vermelho com botões dourados.
Sofá de Rainha, dizia ele. Sorriu ao lembrar.
Por, um minuto quase desistiu, um súbito medo tomou conta de seu corpo, e um embrulho no estômago causou-lhe náuseas, apoiou-se na cama para não cair, coisas que lhe tiravam da rotina lhe causavam um imenso pavor.
Mas era exatamente isso que queria mudar, não poderia mais viver em torno do passado, e muito menos em torno dos erros do passado.
Sua vida era um desfile de coisas sem sentido, e a muito havia deixado de acreditar que isso poderia mudar.
Respirou fundo, tomou um copo de água, sentiu-se melhor, o medo não poderia lhe dominar, em diversas ocasiões tentou tomar uma atitude, mas sempre desistia, dessa vez não.
Estava decidida.
Pegou a pequena sacola, com duas ou três mudas de roupa, e aquela foto, que era a única coisa que queria daquela que havia sido sua vida, tão segura, tão... sem graça.
Olhou mais vez para aquele pequeno espaço, que durante muito tempo fora seu refúgio, seu mundo.
Quando chegou ali, suas idéias eram outras, sua vida era outra, ela era outra.
Bateu a porta, sem sentir medo, sem sentir remorso, principalmente do que tinha deixado pra trás.

18h30.

O vento soprava forte e uma fina chuva caia.
Ele entrou no pequeno cômodo, onde tudo permanecia igual.
A cama arrumada com esmero, cortinas fechadas.
Olhou a volta, nem sinal dela.
Abriu o armário, guardou seu casaco. As roupas ainda estavam lá, intactas.
Sentou-se no pequeno sofá, um dos poucos luxos a que tinham se proporcionado, um belo sofá de veludo vermelho, com um grande espaldar, e botões dourados.
Destoava de todo o resto, era luxuoso e ostensivo, mas ela amava.
Dizia que se não pudessem ter um castelo, teriam ao menos onde sentar pensando nele.
Quando o viu, o sofá, ficou maluca, o queria a todo preço, e como não negava nenhum de seus desejos, usou quase todas as suas economias, e deu-lhe de presente.
Nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aquele sorriso, e a felicidade em seus olhos quando viu o pequeno sofá vermelho de veludo.
Meu sofá de rainha! Meu castelo! Dizia ela, atirando-se nele em seguida.
Ela era sua razão de viver. Tudo que fazia, tudo que planejava, era por ela.
Não saberia viver sem sua presença, mas sentia que algo estava mudando.
Ela já não sorria mais como antes, estava triste.
Olhou ao lado da cama, onde antes havia a foto deles. Não estava lá.
Achou estranho, mas como nunca pensava muito nos detalhes, logo seu pensamento passou para banalidades, como o tempo e no que iriam comer no jantar.
Esperaria por ela para decidir, talvez uma pizza ou até comer fora, porque não uma extravagância.
Ligou a tv para distrair-se.

18h45.

Estação de trem.
Uma deliciosa sensação de liberdade tomou conta dela.
A tempos não sentia-se assim.
Feliz pelo simples fato de existir e de estar viva.
Não queria pensar no que havia deixado.
Amava-o, mas sabia que ele não lhe daria o queria, queria aventuras, paixão, novidades.
Sua vida não era mais assim. Então recomeçaria tudo do zero.
Com o pouco que tinha, e o muito que queria.

19h

Entrou no trem, sem olhar para trás, mas com um sorriso nos lábios.

 
 









Chega de textos melosos.

Dúvidas que ja foram esclarecidas.

Frases que ja foram escritas.

Palavras que ja foram ditas.



Existem situações que é melhor calar.

 
 


E ela me olhou com aquele olhar doce que só as crianças tem, e que de tão sinceros chegam a dar medo.

Não entendia porque eu chorava, porque eu estava triste.

Eu,no meu egoísmo,querendo sentir tudo,sofrer tudo,entender tudo, não percebi que mexia com os sentimentos dela.

Então veio a pergunta:


- Dinda, porque tá chorando?


Virei-me para ela, me olhava fixamente, com aqueles imensos olhos escuros, séria.


-A dinda está triste.

Ela ainda sem entender, perguntou.

-Porque?

Sempre somos pegos de surpresa com as indagações infantis, para eles tudo é simples, é preto no branco, é sim ou não, é gostar ou não.

Não sabia o que responder, o olhar sério, decidido, me envergonhou.
Porque complicamos tudo, pensei.


Respondi que algo havia acontecido, que havia me deixado triste, mas ia passar.

Ela, no alto de sua sabedoria infantil de 5 anos, me falou.

-Sempre passa. Tu tem eu dinda, tem a vovó, tem a mamãe,(minha irmã), e nós te amamos.(Exatamente como ela disse).
E o amor é tão grande, falou, que é maior que essa casa.

Sorriu abrindo os bracinhos pequenos, para demonstrar o que sentia.

Não pude falar mais nada, engasguei,e segurei as lágrimas que insistiam em cair.


*A vida deveria ser sempre assim, simples como o pensamento de uma criança.



 
 


Sentia sua presença. Em tudo.


Seu cheiro, seu gosto, suas manias, a maneira como falava, seus gestos ainda tão familiares.


A maneira como faziam amor, o beijo quente e intenso, o corpo junto ao seu, o suor que escorria pelas costas, os olhos revirando de paixão, desejo, a respiração ofegante... e as palavras que gostava de dizer, junto ao seu ouvido.



Ele ainda estava lá. Em sua mente, em seu corpo, em seu coração.


Mas não mais presente em sua vida. Chorou sua morte.

Por dias sentiu como se tivessem arrancado algo de seu corpo, uma parte dela havia morrido, junto com ele.



* Muitas vezes é preciso dar as costas.E esquecer.

 
 




E ela olhou, pegou, cheirou e sentiu.


Percebeu que era tudo falso. Como um boneco em uma vitrine.


Colocou tudo em uma caixa, fechou e foi embora, sem olhar para trás.




* Aquilo que muitas vezes é colorido ao coração é cinza aos olhos.



 
 

Ele é único, o jeito de franzir a testa quando está preocupado, a maneira quase infantil de pedir as coisas, a docilidade, a sinceridade, a voz que pode ser firme e terna e uma risada contagiante, inebriante, que fascina.
Tem um jeito malicioso, com um olhar diz tudo, sem pronunciar uma palavra.
Quando está feliz tudo nele vibra, é emoção, é paixão.
A maneira como baixa os olhos quando fala, a força e a vontade que coloca em tudo que faz.

A obstinação, a superação.


O sorriso mais sincero.
O abraço mais verdadeiro.
O beijo mais ardente.

Olhos que me fazem perder o rumo.

Me confundo, e ao mesmo tempo acho a explicação para tudo o que até hoje ainda não tinha entendido.

Minha mudança mais significativa.
Meu desejo mais secreto... meu sonho mais louco, que agora finalmente tomou forma.


.......









 
 


O lugar estava cheio, a música era hipnotizante.

Risos, meia luz, taças de vinho tilintando e uma sensação inebriante de felicidade.

Estava ali eu, sentada naquela cadeira, acompanhando meus pais em mais uma noite que na minha visão seria como todas as outras, conversas vazias no meio de gente chata.

O que eu, no alto dos meus 15 anos fazia ali, naquela pequena cidade, no meio de pessoas tão sem graça?

Depois de várias recusas para dançar, e algumas tentativas frustradas de ir embora, aconteceu algo inesperado.

Foi quando ela entrou.

Todos na sala viraram-se, possuía um andar único, mesmo que quissesse não poderia passar despercebida.

Pararam-se as danças, os risos, tudo cessou, era somente ela no meio do salão, virou-se para os músicos, e com apenas um sinal, a música recomeçou.

Seu rosto, agora corado contrastava com a cor alva de sua pele lisa, quase juvenil, seus cabelos escuros e curtos, deixavam a mostra sua nuca e seu pescoço de proporções perfeitas.

O mundo podia acabar naquele momento, aquela visão era mágica, surreal.

E ela dançava... ao som frenético daquela música, quase que em transe.

Não se importava com nada, era livre, olhos famintos a seguiam, e ela gostava.

Ah! Ela gostava de ser admirada, desejada, brincava com os sentimentos alheios, era sua diversão, conseguia aguçar a imaginação do mais sério dos homens.

E eu à admirava, tudo o que queria ser, o que queria ter, seu jeito passional, sua segurança, sua maneira muitas vezes até libertina era fascinante.

Era destestada por muitas, invejada por outras, admirada secretamente por todas.

A música parou, ela ofegante permanecia ali, imóvel, o suor escorrendo por suas costas, os braços caidos ao longo do corpo.

Eu olhava à tudo maravilhada, extasiada.

Ela abriu os olhos, arrumou o vestido, e caminhou lentamente para a saída.

Seu perfume ainda persistia no ar, doce e encantador.

Ninguém ousou falar uma palavra, mas os pensamentos quase podiam ser ouvidos.

Depois dessa noite, nunca mais foi vista, como chegou, partiu.

Em vão tentei saber sobre sua vida, mas nada descobri, era como se nunca tivesse existido.

Ainda guardo na memória aquela noite, aquela visão mágica, etérea, que durante anos foi minha referência de liberdade e beleza feminina, e que até hoje me emociona, tanto pela beleza como pela ousadia.