E ela olhou, pegou, cheirou e sentiu.


Percebeu que era tudo falso. Como um boneco em uma vitrine.


Colocou tudo em uma caixa, fechou e foi embora, sem olhar para trás.




* Aquilo que muitas vezes é colorido ao coração é cinza aos olhos.



 
 

Ele é único, o jeito de franzir a testa quando está preocupado, a maneira quase infantil de pedir as coisas, a docilidade, a sinceridade, a voz que pode ser firme e terna e uma risada contagiante, inebriante, que fascina.
Tem um jeito malicioso, com um olhar diz tudo, sem pronunciar uma palavra.
Quando está feliz tudo nele vibra, é emoção, é paixão.
A maneira como baixa os olhos quando fala, a força e a vontade que coloca em tudo que faz.

A obstinação, a superação.


O sorriso mais sincero.
O abraço mais verdadeiro.
O beijo mais ardente.

Olhos que me fazem perder o rumo.

Me confundo, e ao mesmo tempo acho a explicação para tudo o que até hoje ainda não tinha entendido.

Minha mudança mais significativa.
Meu desejo mais secreto... meu sonho mais louco, que agora finalmente tomou forma.


.......









 
 


O lugar estava cheio, a música era hipnotizante.

Risos, meia luz, taças de vinho tilintando e uma sensação inebriante de felicidade.

Estava ali eu, sentada naquela cadeira, acompanhando meus pais em mais uma noite que na minha visão seria como todas as outras, conversas vazias no meio de gente chata.

O que eu, no alto dos meus 15 anos fazia ali, naquela pequena cidade, no meio de pessoas tão sem graça?

Depois de várias recusas para dançar, e algumas tentativas frustradas de ir embora, aconteceu algo inesperado.

Foi quando ela entrou.

Todos na sala viraram-se, possuía um andar único, mesmo que quissesse não poderia passar despercebida.

Pararam-se as danças, os risos, tudo cessou, era somente ela no meio do salão, virou-se para os músicos, e com apenas um sinal, a música recomeçou.

Seu rosto, agora corado contrastava com a cor alva de sua pele lisa, quase juvenil, seus cabelos escuros e curtos, deixavam a mostra sua nuca e seu pescoço de proporções perfeitas.

O mundo podia acabar naquele momento, aquela visão era mágica, surreal.

E ela dançava... ao som frenético daquela música, quase que em transe.

Não se importava com nada, era livre, olhos famintos a seguiam, e ela gostava.

Ah! Ela gostava de ser admirada, desejada, brincava com os sentimentos alheios, era sua diversão, conseguia aguçar a imaginação do mais sério dos homens.

E eu à admirava, tudo o que queria ser, o que queria ter, seu jeito passional, sua segurança, sua maneira muitas vezes até libertina era fascinante.

Era destestada por muitas, invejada por outras, admirada secretamente por todas.

A música parou, ela ofegante permanecia ali, imóvel, o suor escorrendo por suas costas, os braços caidos ao longo do corpo.

Eu olhava à tudo maravilhada, extasiada.

Ela abriu os olhos, arrumou o vestido, e caminhou lentamente para a saída.

Seu perfume ainda persistia no ar, doce e encantador.

Ninguém ousou falar uma palavra, mas os pensamentos quase podiam ser ouvidos.

Depois dessa noite, nunca mais foi vista, como chegou, partiu.

Em vão tentei saber sobre sua vida, mas nada descobri, era como se nunca tivesse existido.

Ainda guardo na memória aquela noite, aquela visão mágica, etérea, que durante anos foi minha referência de liberdade e beleza feminina, e que até hoje me emociona, tanto pela beleza como pela ousadia.



















 
 


Ela podia ser qualquer uma, com qualquer nome, usando qualquer roupa, falando qualquer coisa com qualquer um que fosse.

Suas palavras eram doces, seu cheiro açucarado, seu cabelo esvoaçante, seu andar quase que dançado.

Sua vida era regida por Vênus, guiada por Júpiter e abençoada por Iemanjá.

Seu lema era viver cada dia como se fosse o último, e se fosse preciso chorar, que o faça da primeira vez, porque da segunda não estaria mais lá.

Tudo que possuía era precioso, um pensamento, um cheiro, um gosto e até um desgosto, porque só de felicidades não vive o homem, dizia ela.

Gostava de emoções, estava pelo risco, pela loucura, e por paixões que a tirassem do chão

Perguntas não queria, promessas não pedia, somente o prazer de estar onde devia.

E sua canção...se tivesse que escolher, esta seria.

"I hope you don't mind, I hope you don't mind that I put down in words;
How wonderful life is now you're in the world."








 
 


Não tinha certeza se tudo era realmente verdade, as vezes pensava que tinha sido um sonho, algo que havia acontecido a muito tempo.
Palavras, sensações, sentimentos, beijos, abraços, a mão que toca com delicadeza, o sono agitado, mas com a certeza de se estar seguro, o silêncio que não precisava ser quebrado, a história que precisava ser terminada.

Caminhou durante horas. Não sabia para onde estava indo, era guiada por suas lembranças.


Já não sentia mais a melancolia de outrora, somente a sensação de estar vivendo e sentindo algo que nunca sentira, não daquela maneira e com tamanha intensidade.
Dizem que quando se ama, perde-se a razão, o equilíbrio, a sanidade, comete-se loucuras em nome de um sentimento que nem sempre é verdadeiro. Mas dessa vez não, fora tudo diferente.
Alguma coisa estava diferente, ela sabia, não sentia o medo, a ansiedade, ou a tristeza de estar longe, somente a sensação de ter feito tudo, sentido tudo, vivido tudo.

Parada na rua, levantou os olhos, e lembrou daquele lugar, nem havia percebido, mas sem querer acabou naquela rua, onde haviam dado o primeiro beijo.



E aquele beijo...
Que disse tanta coisa, que mostrou tanta coisa, ainda podia sentir seu gosto, e a deliciosa sensação de entrega, do novo, da surpresa.
Foi ali, que mesmo sem saber, havia se apaixonado.


Mesmo que quissesse, mesmo que tentasse, não poderia esquecer... não ainda.


 
 


Apaixonadamente inconstante, parecia muitas, no meio de poucas que perto dela...

Eram nada.


Era essa sua diferença.

 
 


O sol no rosto, quente e terno, lembranças vão e vem como um carrosel.

Crianças brincando, casais sorrindo, o cheiro do café, o sorriso ingênuo, e a pergunta que ficou sem resposta.

A vida como deveria ser, sem questionamentos, sem rancores, sem mentiras ou verdades inventadas, somente o prazer de estar na hora certa, no lugar certo, e quem sabe, com a pessoa certa.


***


Seu sorriso era encantador, quase hipnótico, exalava um perfume inebriante que o deixava tonto.

Sentiu-se preso, estava perdido e enlouquecidamente apaixonado.

Seus olhos diziam tudo e nada ao mesmo tempo, eram sua perdição e sua redenção.

E aquele beijo! Ah! Nunca poderia esquecer.

Ele fora o prenúncio de tudo, de tudo que viria a acontecer depois.

Depois daquele beijo, sua vida nunca mais seria a mesma.