O cheiro ainda estava em sua pele. Mesmo que quissese não conseguiria esquecer.


Sua vida sempre havia sido fora dos padrões, não poderia ser diferente com seus amores.

Os mais loucos, os mais insanos, os mais devastadores.

Carregava o gen da loucura, da volúpia, do desejo incontrolável da paixão.


Seu corpo pulsava, tremia.

O suor ainda grudado no seu corpo, persistia. E aquele cheiro a enlouquecia.
A voz em seu ouvido. A lingua em sua boca.

Como poderia resistir. Era sua perdição, ela sabia.


O corpo exausto estendido na cama. A força. A vontade. O desejo.


Todas as suas decisões sempre caiam por terra quando ele aparecia.


Esquecia tudo. E deixava-se levar por seus desejos, suas loucuras mais íntimas e mais secretas.

Ele a conhecia, cada cantinho obscuro de seu corpo.




Sua fraqueza? Sim.


A mais deliciosa delas, e também a mais letal.


 
 

" Camélia ficou viúva.
Joana se apaixonou.
Maria tentou a morte, por causa de seu amor.

Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado, quando penso no futuro não esqueço meu passado."




(...) Danço eu, dança você na dança da solidão.(...)


 
 


A janela estava fechada. As cortinas não mais se abriram.

Ela não mais passara com seus fones, sua sacola, cantarolando sua música preferida.
Ele durante dias esperou.

No mesmo horário, no mesmo lugar.

Não sabia o que havia acontecido. Ela simplesmente sumira.
Depois de alguns dias, resolveu perguntar ao porteiro do pequeno prédio cor de rosa, onde estava a menina de cabelos curtos, que todas as manhãs dali saía.

O porteiro com os olhos marejados, lhe contou.

A noticia era triste. Depois de alguns dias sem movimento algum no pequeno apartamento, resolveram bater na porta.
Viram a menina entrar, sabiam que era sozinha, não tinha parentes, nem amigos, vivia só.
Era doce, sorria pouco, conversava pouco, mas era boa menina, disse o porteiro.

Bateram sem ter resposta, resolveram então arrombar a porta.
Quando entraram a visão foi a mais triste que ja tinha presenciado, falou com a voz embargada o porteiro.

Na cama, encolhida como um bebê, estava a menina, branquinha, enrolada em um cobertor.

No início, acharam que dormia, tamanha a paz que seu rosto possuia, mas chegando mais perto viram que não mais respirava, e sua pele estava gelada como a neve.

Em uma das mãos, um pedaço de papel.

Com alguma dificuldade, conseguiram tirá-lo, dos dedos agora frios e sem vida.
Ali, com uma letra que quase ja não se via mais, talvez por ter sido manuseado muitas vezes, puderam ver uma carta, de alguém que se despedia dela, pedindo que não mais a procurasse.

Do lado da cama, alguns remédios.
Quando terminou de contar a história, o porteiro chorava.

Ele, não conseguia pensar em nada.
Só pediu um único favor, se podia entrar no apartamento.

O porteiro possuia a chave, disse que sim, já que depois de toda aquela tragédia ele tinha sido a única pessoa que havia perguntado por ela, não havia o porque de não deixá-lo entrar.
Chegaram na porta, ele tremia, um enorme sentimento de tristeza invadiu seu coração, perguntou se podia ficar só, eram somente alguns minutos, não mais que isso. Respirou fundo e entrou.
Era pequeno, mas organizado, possuia poucos móveis, alguns porta retratos, uma pequena cama, um aparador e um guarda-roupa em um dos cantos.
Era somente uma peça e um banheiro.

Procurou a janela, onde muitas vezes a viu, as cortinas, agora cerradas, tinham um ar triste, como se chorassem.
Notou ao lado da cama, uma caixinha, abriu, lá dentro um par de pequenos brincos de pérolas, uma medalhinha e uma foto desbotada, de uma moça jovem, com um lindo bebê no colo.

Não acreditava no que havia acontecido, tanta coisa queria ter falado, tantas coisas poderiam ter feito.
Naquele dia cinza, quando seus olhares se cruzaram, ela lhe pediu por ajuda, suplicou, e ele, covarde, não atendeu seu chamado.

Agora estava morta.

Quando estava prestes a sair, no cantinho da janela olhou o pequeno vaso, com a plantinha miúda que ela cuidava, como se fosse seu jardim particular.

Levaria consigo e cuidaria dela, onde quer que ele estivesse, um pedacinho dela iria junto.
Durante muitos anos no mesmo horário, continuou passando por aquela rua, por aquele prédio com a enorme porta dourada.

Levou consigo a lembrança dos dias de sol, em que ela cantava pela rua, carregando a pequena sacola.
Seu amor foi fiel até o último dia de sua vida, quando então finalmente, podê encontrá-la.





 
 



Cansei de noites insônes, dias longos, sorrisos forçados, palavras doces tentando(ou querendo)dizer coisas que não são sinceras.

Chega te tentar achar respostas para tudo,sendo que elas não existem.


Meu coração está vazio,confuso,com raiva... e na realidade eu mesma não faço nada para mudar isso.


Frases feitas não deveriam mais me conquistar,o clichê na realidade, acho que até me atrai, pois acabo sempre no mesmo filme, mesmos finais, mesmos personagens, mudando somente os diálogos, alguns mais fortes,outros mais doces,mas sempre com a mesma despedida fraca e as desculpas de sempre... Foi bom... mas quem sabe...

A merda com isso!


Na verdade... sou um reflexo das minhas escolhas, e nem posso dizer que me arrependo, pois nunca faria isso...

Arrependimentos não são para mim mesmo.


"Se preserve!" Eu ouvi.


Então tá pessoa, me preservarei, de tudo.






 
 


Vinha pela rua perdida em seus pensamentos.

Caminhava lentamente, o sol esquentando seu rosto, o frio intenso cortanto sua pele, mas parecia estar feliz.

Ele a observava à algum tempo, ela passava por ali todos os dias, cabelos curtos, um jeito simples, puro, limpo.

Carregava sempre uma sacola nas mãos, um livro na outra, fones nos ouvidos, e uma manta enrolada no pescoço.

Seus olhos escuros eram sinceros, ja haviam se cruzado algumas vezes, mas ela não o notara.

Todos os dias ela entrava naquele prédio cor de rosa da pequena rua do centro de Porto Alegre, um prédio antigo, com uma grande porta dourada.

Dezenas de vezes parou em frente ao seu prédio, sabia qual era sua janela, conseguia ver quando abria as cortinas brancas e transparentes para deixar o ar entrar, e quando respirava fundo, como que quisesse sentir-se viva.

Sabia sua rotina, quando molhava a pequena plantinha miúda, que ficava no parapeito da janela, quando cantarolava pela sala, quando falava ao telefone. Sabia tudo, mas não sabia seu nome.

Ele a cuidava. Um amor platônico puro, sincero.

Algumas vezes viu seu olhar triste, perdido, ja tinha visto lágrimas naqueles olhos escuros.

Nesse momento sentiu raiva, quem poderia fazê-la chorar?

Viu quando cantava pela rua, com os fones nos ouvidos, sorrindo... Sentiu uma pequena inveja, de quem ou o quê haviam causado tamanha alegria.

Hoje, porém, estava triste. Seus olhos estavam úmidos, caminhava lentamente, sem pressa, não carregava o livro, não tinha os fones nos ouvidos.

Somente a pequena sacola, e alguma coisa na outra mão, que não conseguia visualizar o que era.

Uma fina chuva caia naquele dia, um dia cinza de inverno no Sul.

Ele, mesmo assim, estava lá, no mesmo lugar a sua espera.

Quando ela entrava no pequeno prédio, seus olhares se cruzaram.

Os olhos marejados, continham uma tristeza que ele jamais vira.

Segurava um pedaço de papel amassado entre seus pequenos dedos, vermelhos pelo frio.

Segurou o olhar o quanto pôde, ela o fitava, quase pedindo por algo, querendo algo.

As palavras ficaram presas, não conseguia abrir a boca, esperara tanto por aquele momento, e o medo o impediram de falar qualquer coisa que fosse.

Ela então, baixando a cabeça, entrou no pequeno prédio cor de rosa, da pequena rua, no centro de Porto Alegre.

Ele ficou ali, parado.

Virou-se e caminhando lentamente na chuva, seguiu seu caminho.

Amanha estaria ali, novamente a sua espera.

















 
 





Endiabrada hoje.
*********

 
 


18:00.

Arrumou a cama como sempre fazia, mas dessa vez com mais capricho, abriu o armário, ali estavam suas roupas, seus sapatos, seus pertences pessoais, tudo aquilo que lhe era tão familiar, sentiu-se estranhamente feliz, era o que possuía, roupas, uma cama, uma estante com seus livros preferidos, esses não deixaria para trás, fotografias antigas que retratavam um tempo que não mais existia, rostos que agora faziam parte do passado, e claro, seu lindo sofá de veludo vermelho com botões dourados.
Sofá de Rainha, dizia ele. Sorriu ao lembrar.
Por, um minuto quase desistiu, um súbito medo tomou conta de seu corpo, e um embrulho no estômago causou-lhe náuseas, apoiou-se na cama para não cair, coisas que lhe tiravam da rotina lhe causavam um imenso pavor.
Mas era exatamente isso que queria mudar, não poderia mais viver em torno do passado, e muito menos em torno dos erros do passado.
Sua vida era um desfile de coisas sem sentido, e a muito havia deixado de acreditar que isso poderia mudar.
Respirou fundo, tomou um copo de água, sentiu-se melhor, o medo não poderia lhe dominar, em diversas ocasiões tentou tomar uma atitude, mas sempre desistia, dessa vez não.
Estava decidida.
Pegou a pequena sacola, com duas ou três mudas de roupa, e aquela foto, que era a única coisa que queria daquela que havia sido sua vida, tão segura, tão... sem graça.
Olhou mais vez para aquele pequeno espaço, que durante muito tempo fora seu refúgio, seu mundo.
Quando chegou ali, suas idéias eram outras, sua vida era outra, ela era outra.
Bateu a porta, sem sentir medo, sem sentir remorso, principalmente do que tinha deixado pra trás.

18h30.

O vento soprava forte e uma fina chuva caia.
Ele entrou no pequeno cômodo, onde tudo permanecia igual.
A cama arrumada com esmero, cortinas fechadas.
Olhou a volta, nem sinal dela.
Abriu o armário, guardou seu casaco. As roupas ainda estavam lá, intactas.
Sentou-se no pequeno sofá, um dos poucos luxos a que tinham se proporcionado, um belo sofá de veludo vermelho, com um grande espaldar, e botões dourados.
Destoava de todo o resto, era luxuoso e ostensivo, mas ela amava.
Dizia que se não pudessem ter um castelo, teriam ao menos onde sentar pensando nele.
Quando o viu, o sofá, ficou maluca, o queria a todo preço, e como não negava nenhum de seus desejos, usou quase todas as suas economias, e deu-lhe de presente.
Nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aquele sorriso, e a felicidade em seus olhos quando viu o pequeno sofá vermelho de veludo.
Meu sofá de rainha! Meu castelo! Dizia ela, atirando-se nele em seguida.
Ela era sua razão de viver. Tudo que fazia, tudo que planejava, era por ela.
Não saberia viver sem sua presença, mas sentia que algo estava mudando.
Ela já não sorria mais como antes, estava triste.
Olhou ao lado da cama, onde antes havia a foto deles. Não estava lá.
Achou estranho, mas como nunca pensava muito nos detalhes, logo seu pensamento passou para banalidades, como o tempo e no que iriam comer no jantar.
Esperaria por ela para decidir, talvez uma pizza ou até comer fora, porque não uma extravagância.
Ligou a tv para distrair-se.

18h45.

Estação de trem.
Uma deliciosa sensação de liberdade tomou conta dela.
A tempos não sentia-se assim.
Feliz pelo simples fato de existir e de estar viva.
Não queria pensar no que havia deixado.
Amava-o, mas sabia que ele não lhe daria o queria, queria aventuras, paixão, novidades.
Sua vida não era mais assim. Então recomeçaria tudo do zero.
Com o pouco que tinha, e o muito que queria.

19h

Entrou no trem, sem olhar para trás, mas com um sorriso nos lábios.

 
 









Chega de textos melosos.

Dúvidas que ja foram esclarecidas.

Frases que ja foram escritas.

Palavras que ja foram ditas.



Existem situações que é melhor calar.

 
 


E ela me olhou com aquele olhar doce que só as crianças tem, e que de tão sinceros chegam a dar medo.

Não entendia porque eu chorava, porque eu estava triste.

Eu,no meu egoísmo,querendo sentir tudo,sofrer tudo,entender tudo, não percebi que mexia com os sentimentos dela.

Então veio a pergunta:


- Dinda, porque tá chorando?


Virei-me para ela, me olhava fixamente, com aqueles imensos olhos escuros, séria.


-A dinda está triste.

Ela ainda sem entender, perguntou.

-Porque?

Sempre somos pegos de surpresa com as indagações infantis, para eles tudo é simples, é preto no branco, é sim ou não, é gostar ou não.

Não sabia o que responder, o olhar sério, decidido, me envergonhou.
Porque complicamos tudo, pensei.


Respondi que algo havia acontecido, que havia me deixado triste, mas ia passar.

Ela, no alto de sua sabedoria infantil de 5 anos, me falou.

-Sempre passa. Tu tem eu dinda, tem a vovó, tem a mamãe,(minha irmã), e nós te amamos.(Exatamente como ela disse).
E o amor é tão grande, falou, que é maior que essa casa.

Sorriu abrindo os bracinhos pequenos, para demonstrar o que sentia.

Não pude falar mais nada, engasguei,e segurei as lágrimas que insistiam em cair.


*A vida deveria ser sempre assim, simples como o pensamento de uma criança.



 
 


Sentia sua presença. Em tudo.


Seu cheiro, seu gosto, suas manias, a maneira como falava, seus gestos ainda tão familiares.


A maneira como faziam amor, o beijo quente e intenso, o corpo junto ao seu, o suor que escorria pelas costas, os olhos revirando de paixão, desejo, a respiração ofegante... e as palavras que gostava de dizer, junto ao seu ouvido.



Ele ainda estava lá. Em sua mente, em seu corpo, em seu coração.


Mas não mais presente em sua vida. Chorou sua morte.

Por dias sentiu como se tivessem arrancado algo de seu corpo, uma parte dela havia morrido, junto com ele.



* Muitas vezes é preciso dar as costas.E esquecer.