18:00.

Arrumou a cama como sempre fazia, mas dessa vez com mais capricho, abriu o armário, ali estavam suas roupas, seus sapatos, seus pertences pessoais, tudo aquilo que lhe era tão familiar, sentiu-se estranhamente feliz, era o que possuía, roupas, uma cama, uma estante com seus livros preferidos, esses não deixaria para trás, fotografias antigas que retratavam um tempo que não mais existia, rostos que agora faziam parte do passado, e claro, seu lindo sofá de veludo vermelho com botões dourados.
Sofá de Rainha, dizia ele. Sorriu ao lembrar.
Por, um minuto quase desistiu, um súbito medo tomou conta de seu corpo, e um embrulho no estômago causou-lhe náuseas, apoiou-se na cama para não cair, coisas que lhe tiravam da rotina lhe causavam um imenso pavor.
Mas era exatamente isso que queria mudar, não poderia mais viver em torno do passado, e muito menos em torno dos erros do passado.
Sua vida era um desfile de coisas sem sentido, e a muito havia deixado de acreditar que isso poderia mudar.
Respirou fundo, tomou um copo de água, sentiu-se melhor, o medo não poderia lhe dominar, em diversas ocasiões tentou tomar uma atitude, mas sempre desistia, dessa vez não.
Estava decidida.
Pegou a pequena sacola, com duas ou três mudas de roupa, e aquela foto, que era a única coisa que queria daquela que havia sido sua vida, tão segura, tão... sem graça.
Olhou mais vez para aquele pequeno espaço, que durante muito tempo fora seu refúgio, seu mundo.
Quando chegou ali, suas idéias eram outras, sua vida era outra, ela era outra.
Bateu a porta, sem sentir medo, sem sentir remorso, principalmente do que tinha deixado pra trás.

18h30.

O vento soprava forte e uma fina chuva caia.
Ele entrou no pequeno cômodo, onde tudo permanecia igual.
A cama arrumada com esmero, cortinas fechadas.
Olhou a volta, nem sinal dela.
Abriu o armário, guardou seu casaco. As roupas ainda estavam lá, intactas.
Sentou-se no pequeno sofá, um dos poucos luxos a que tinham se proporcionado, um belo sofá de veludo vermelho, com um grande espaldar, e botões dourados.
Destoava de todo o resto, era luxuoso e ostensivo, mas ela amava.
Dizia que se não pudessem ter um castelo, teriam ao menos onde sentar pensando nele.
Quando o viu, o sofá, ficou maluca, o queria a todo preço, e como não negava nenhum de seus desejos, usou quase todas as suas economias, e deu-lhe de presente.
Nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aquele sorriso, e a felicidade em seus olhos quando viu o pequeno sofá vermelho de veludo.
Meu sofá de rainha! Meu castelo! Dizia ela, atirando-se nele em seguida.
Ela era sua razão de viver. Tudo que fazia, tudo que planejava, era por ela.
Não saberia viver sem sua presença, mas sentia que algo estava mudando.
Ela já não sorria mais como antes, estava triste.
Olhou ao lado da cama, onde antes havia a foto deles. Não estava lá.
Achou estranho, mas como nunca pensava muito nos detalhes, logo seu pensamento passou para banalidades, como o tempo e no que iriam comer no jantar.
Esperaria por ela para decidir, talvez uma pizza ou até comer fora, porque não uma extravagância.
Ligou a tv para distrair-se.

18h45.

Estação de trem.
Uma deliciosa sensação de liberdade tomou conta dela.
A tempos não sentia-se assim.
Feliz pelo simples fato de existir e de estar viva.
Não queria pensar no que havia deixado.
Amava-o, mas sabia que ele não lhe daria o queria, queria aventuras, paixão, novidades.
Sua vida não era mais assim. Então recomeçaria tudo do zero.
Com o pouco que tinha, e o muito que queria.

19h

Entrou no trem, sem olhar para trás, mas com um sorriso nos lábios.

 
 
 
 

Postar um comentário 7 comentários:

Flávio Gabriel disse...

A Senhorita sabe que eu ODEIO, ODEIO ficar curioso. Então mocinha, trate de publicar logo o final dessa história.

Quanto ao meu último: Deu se ao luxo de sentir o que Lúcifer sentiu? Conselho. Apague as luzes, imagine-se no lugar dele e apenas escute.

Beijos.

10 de julho de 2009 23:55

Marcos Campos disse...

Oi Renatinha!!
Concordo com o amigo acima, vc tem o dom de nos deixar a espera do desfecho...mas é vc quem sabe o rumo da estoria ou historia, talvez vc queira provocar isso mesmo, o final da historia pra gente imaginar...
Beijos!!

11 de julho de 2009 19:53

Sun disse...

Talvez esta história não tenha rumo, não tenha desfecho...Talvez seja a biografia de uma vida, e como tal, não tenha fim...

;)
Não te preocupes, Renata, esteja a vontade para falar quando quiseres, como quiseres, e do quê quiseres.
Estarei sempre aqui ;)


beijo amoure*

12 de julho de 2009 05:33

Lis disse...

É guria, é muito confortável viver uma rotina sem fim. Poucos são os ue conseguem mudar o ritmo ou o rumo da própria história.

Eu de vez em quando penso e acabo não concretizando as coisas que penso. E olha que nem é fugir de casa. :=)

Adorei o texto, bem organizado.

Beijos e bom findi!

12 de julho de 2009 09:18

Andreia disse...

Por vezes é apenas preciso uma pequena força interior! *

12 de julho de 2009 09:42

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! É, parece que peguei o bonde já em movimento, mas, analisando os passageiros, ficou bastante claro que a cidadã mentiu quando na saída, disse que o amava. Como ela o amava, se até os livros, amigos inseparáveis, estavam sendo deixados para trás? Imaginem só, se ela não o amasse. Bom, cada um que tire suas conclusões.

Perdoe-me pelas baboseiras.

Beijos,

Furtado.

13 de julho de 2009 15:32

©tossan disse...

A vida é uma eterna procura e o encontro não foi marcado, por isso te espero, espero a continuação...Estou gostando! Beijo

14 de julho de 2009 23:49

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