A janela estava fechada. As cortinas não mais se abriram.

Ela não mais passara com seus fones, sua sacola, cantarolando sua música preferida.
Ele durante dias esperou.

No mesmo horário, no mesmo lugar.

Não sabia o que havia acontecido. Ela simplesmente sumira.
Depois de alguns dias, resolveu perguntar ao porteiro do pequeno prédio cor de rosa, onde estava a menina de cabelos curtos, que todas as manhãs dali saía.

O porteiro com os olhos marejados, lhe contou.

A noticia era triste. Depois de alguns dias sem movimento algum no pequeno apartamento, resolveram bater na porta.
Viram a menina entrar, sabiam que era sozinha, não tinha parentes, nem amigos, vivia só.
Era doce, sorria pouco, conversava pouco, mas era boa menina, disse o porteiro.

Bateram sem ter resposta, resolveram então arrombar a porta.
Quando entraram a visão foi a mais triste que ja tinha presenciado, falou com a voz embargada o porteiro.

Na cama, encolhida como um bebê, estava a menina, branquinha, enrolada em um cobertor.

No início, acharam que dormia, tamanha a paz que seu rosto possuia, mas chegando mais perto viram que não mais respirava, e sua pele estava gelada como a neve.

Em uma das mãos, um pedaço de papel.

Com alguma dificuldade, conseguiram tirá-lo, dos dedos agora frios e sem vida.
Ali, com uma letra que quase ja não se via mais, talvez por ter sido manuseado muitas vezes, puderam ver uma carta, de alguém que se despedia dela, pedindo que não mais a procurasse.

Do lado da cama, alguns remédios.
Quando terminou de contar a história, o porteiro chorava.

Ele, não conseguia pensar em nada.
Só pediu um único favor, se podia entrar no apartamento.

O porteiro possuia a chave, disse que sim, já que depois de toda aquela tragédia ele tinha sido a única pessoa que havia perguntado por ela, não havia o porque de não deixá-lo entrar.
Chegaram na porta, ele tremia, um enorme sentimento de tristeza invadiu seu coração, perguntou se podia ficar só, eram somente alguns minutos, não mais que isso. Respirou fundo e entrou.
Era pequeno, mas organizado, possuia poucos móveis, alguns porta retratos, uma pequena cama, um aparador e um guarda-roupa em um dos cantos.
Era somente uma peça e um banheiro.

Procurou a janela, onde muitas vezes a viu, as cortinas, agora cerradas, tinham um ar triste, como se chorassem.
Notou ao lado da cama, uma caixinha, abriu, lá dentro um par de pequenos brincos de pérolas, uma medalhinha e uma foto desbotada, de uma moça jovem, com um lindo bebê no colo.

Não acreditava no que havia acontecido, tanta coisa queria ter falado, tantas coisas poderiam ter feito.
Naquele dia cinza, quando seus olhares se cruzaram, ela lhe pediu por ajuda, suplicou, e ele, covarde, não atendeu seu chamado.

Agora estava morta.

Quando estava prestes a sair, no cantinho da janela olhou o pequeno vaso, com a plantinha miúda que ela cuidava, como se fosse seu jardim particular.

Levaria consigo e cuidaria dela, onde quer que ele estivesse, um pedacinho dela iria junto.
Durante muitos anos no mesmo horário, continuou passando por aquela rua, por aquele prédio com a enorme porta dourada.

Levou consigo a lembrança dos dias de sol, em que ela cantava pela rua, carregando a pequena sacola.
Seu amor foi fiel até o último dia de sua vida, quando então finalmente, podê encontrá-la.





 
 
 
 

Postar um comentário 6 comentários:

Érica disse...

Que bom que tu continuou a história, mas que triste ela é.
Eu acho que ele foi tímido ao se negar a ela quando na verdade queria correr ao seu encontro, tê-la nos braços. Mas ela foi fraca, poderia ter feito mais por eles também, afinal ela queria né? Perder tempo é sempre o pior, bom é investir, mesmo que, talvez, não dê certo. Mas eu acredito no "talvez", mais do que no sim e do que no não. Talvez dê certo ou talvez não. Na dúvida, é melhor arriscar... Sempre.
Beijos querida, adorei o conto. Maravilhoso.

23 de julho de 2009 15:36

Flávio Gabriel disse...

Pobre menina branquinha de cabelos curtos. Se eu soubesse que isso ia acontecer, juro que teria comentado mais no blog dela...

Beijos dona Renatinha.

23 de julho de 2009 15:47

Sun disse...

"tanta coisa queria ter falado, tantas coisas poderiam ter feito."

É sempre assim, né.. Depois que passa, vemos que poderíamos ter feito muito mais, ou simplesmente não ter feito nada. Por vezes, é preferível não fazermos nada, e deixar rolar...


um beijo querida

23 de julho de 2009 16:56

Lis disse...

Renata,

Virou um conto melacólico, triste, mas lindo, sensível. Tomara esses silêncios não se tornassem tragédias.

Beijos

23 de julho de 2009 20:49

Leo Mandoki, Jr. disse...

bem sessão da tarde isso né??!!
bem o outro lado da renatinha..o lado novela das 8..ehehehehe

24 de julho de 2009 08:03

Érica disse...

Renata, vim ler novamente a história. Achei linda e triste, e essa música. Meu deus. Ta tocando meu coração rsrs... De verdade.
Bom final de semana querida.

24 de julho de 2009 17:15

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