Vinha pela rua perdida em seus pensamentos.

Caminhava lentamente, o sol esquentando seu rosto, o frio intenso cortanto sua pele, mas parecia estar feliz.

Ele a observava à algum tempo, ela passava por ali todos os dias, cabelos curtos, um jeito simples, puro, limpo.

Carregava sempre uma sacola nas mãos, um livro na outra, fones nos ouvidos, e uma manta enrolada no pescoço.

Seus olhos escuros eram sinceros, ja haviam se cruzado algumas vezes, mas ela não o notara.

Todos os dias ela entrava naquele prédio cor de rosa da pequena rua do centro de Porto Alegre, um prédio antigo, com uma grande porta dourada.

Dezenas de vezes parou em frente ao seu prédio, sabia qual era sua janela, conseguia ver quando abria as cortinas brancas e transparentes para deixar o ar entrar, e quando respirava fundo, como que quisesse sentir-se viva.

Sabia sua rotina, quando molhava a pequena plantinha miúda, que ficava no parapeito da janela, quando cantarolava pela sala, quando falava ao telefone. Sabia tudo, mas não sabia seu nome.

Ele a cuidava. Um amor platônico puro, sincero.

Algumas vezes viu seu olhar triste, perdido, ja tinha visto lágrimas naqueles olhos escuros.

Nesse momento sentiu raiva, quem poderia fazê-la chorar?

Viu quando cantava pela rua, com os fones nos ouvidos, sorrindo... Sentiu uma pequena inveja, de quem ou o quê haviam causado tamanha alegria.

Hoje, porém, estava triste. Seus olhos estavam úmidos, caminhava lentamente, sem pressa, não carregava o livro, não tinha os fones nos ouvidos.

Somente a pequena sacola, e alguma coisa na outra mão, que não conseguia visualizar o que era.

Uma fina chuva caia naquele dia, um dia cinza de inverno no Sul.

Ele, mesmo assim, estava lá, no mesmo lugar a sua espera.

Quando ela entrava no pequeno prédio, seus olhares se cruzaram.

Os olhos marejados, continham uma tristeza que ele jamais vira.

Segurava um pedaço de papel amassado entre seus pequenos dedos, vermelhos pelo frio.

Segurou o olhar o quanto pôde, ela o fitava, quase pedindo por algo, querendo algo.

As palavras ficaram presas, não conseguia abrir a boca, esperara tanto por aquele momento, e o medo o impediram de falar qualquer coisa que fosse.

Ela então, baixando a cabeça, entrou no pequeno prédio cor de rosa, da pequena rua, no centro de Porto Alegre.

Ele ficou ali, parado.

Virou-se e caminhando lentamente na chuva, seguiu seu caminho.

Amanha estaria ali, novamente a sua espera.

















 
 
 
 

Postar um comentário 9 comentários:

ARCANO disse...

Eu busco o mesmo olhar sincero qdo caminho distraida pela rua.

Voce é todo poesia, Rê! *-*

16 de julho de 2009 15:23

D.Ramírez disse...

Renata, vc sumiu eu sumi, ai vc volta, leio, releio.Avredita q senti falta dos seus posts? Olha só esse q lindo e intenso, intensidade que é sua marca registrada.
Adorei de novo;)

Besos

17 de julho de 2009 08:59

Sandrita disse...

Meu amor, valeu a pena esperar por mais um post teu.
Nostalgico, é assim que classifico este teu post, talvez por eu ser esta menina na chuva, com um papel amaçado numa das mãos.


beijo grande coração*

17 de julho de 2009 11:36

Érica disse...

Porque ele não foi? Não a deteve, cruzou seu caminho, segurou sua sacola? Ela deve querer um abraço e um doce afagar de cabelos, mãos dadas seguindo em quarteirões e halitos de hortelã trocados em frases soltas. Eu estou me vendo muito ai, e tô te vendo também, aliás, vejo várias. Intensas. Que esperam sempre, o cuidado, o carinho.
Continua essa história Renata, linda. Cada passo eu fiquei imaginando. Me emocionou.
Beijo grande minha querida e um lindo fds pra você.
Foi tão Amelie esse post, o prédio rosa no centro de Poa, pense como eu gosto dessa tua terra.rsrs...

17 de julho de 2009 16:47

disse...

A Érica tem razão... não é nada difícil de imaginar... os passos, os lugares conhecidos... e toda a sensação, aff, a sensação... que saudade!
Mas a história continuará... pois o show da vida não pára (tô mto clichê, hoje, hehe)!
E nós... AGUARDAREMOS os próximos 'atos' do espetáculo!
AMOOOOO MUITO!

17 de julho de 2009 17:05

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! É, realmente tens razão, a indiferença parece que está tomando conta do ser humano. DEUS queira que não. Adorei o texto, bem coordenado. Parabéns!

Beijos,

Furtado.

19 de julho de 2009 16:43

Lis disse...

Renata,

Lindo teu texto, teu conto. Quantas vezes será que perdemos uma chance na vida por deixar de falar um oi que seja?

Dias frios, cinzas e úmidos de PoA, mais vontade de encontrar um lindo olhar que nos enxergue para além da supeficialidade.

Lindo post.

Beijos, querida!

Cuide-se!

19 de julho de 2009 20:49

©tossan disse...

Amor platônico é sofrido! Vamos aguardar o final. Gosto mais quando me contas tudo sem capítulos, mas tá bom! Beijo

20 de julho de 2009 00:00

Aline Dias disse...

s ruas de um Porto não muito alegre..."

20 de julho de 2009 06:48

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